‘‘Para crescer sem parar, o Brasil tem de fazer duas lições de casa: investir pesado na educação e apostar ousado na exportação.’’Jeffrey Sachs, economista americano
Vender ou vender
A dicotomia cepalista do mercado interno versus mercado externo deve ser enterrada em esquife de segunda classe. Ela teve peso e teve pose nos anos 50/60, quando do processo de substituição incentivada de importações. De lá para cá, deixou-se atropelar pela dinâmica da economia mundial, que ainda não era sequer xingada de economia global.
A ótica cepalista deu certo na hora certa e Zé fini. O problema é que os cepalistas e os neocepalistas insistem, ainda hoje, em encarar mercado interno e mercado externo como excludentes ou alternativos e não como complementares ou aditivos. Esse estrabismo intelectual da América Latina não bateu ponto na tigrada asiática - cujo farol ideológico acabou sendo uma ‘‘Cepal’’ samurai chamada Japão.
Do Japão segunda potência à China ainda comunista (mas já com viés de consumista), o mercado externo foi adotado como o melhor atalho para a construção, expansão e modernização da economia nacional. A China do livrinho azul de Deng Xiaoping precisou de apenas uma década e meia para aumentar as vendas externas anuais de US$ 10 bilhões para mais de US$ 150 bilhões.
A exemplo de japoneses, coreanos e patrícios de Hong Kong e Taiwan, os chineses souberam nadar a favor da maré da globalização. O comércio mundial, que vinha trotando a 4% ao ano até os anos 80, acelerou para até 10% nos anos 90 (com recorde de 12,6% em 2000). Antes, só dobrava de tamanho em 18 anos. Agora, a cada 7 anos.
E o Brasil? Ainda não saímos da praia. Nossa fatia no bolo global simplesmente regrediu de 1,2%, em 1973, para 0,8% na média do último triênio. Estamos embarcando nada além de metade dos embarques totais de Hong Kong - cidade menor que o Rio de Janeiro. E onde o 1.º de Maio, sob o guarda-chuva vermelho do PC chinês (desde 1997), entoou um hino de louvor ao sucesso do ‘‘socialismo de mercado’’ no rodapé da ‘‘generosa globalização capitalista’’. Detalhe: a China ainda não foi sequer admitida na OMC.
Enquanto isso, cá estamos acompanhando a variação semanal neurotizante dos fluxos de exportação e importação. Só falta alguém propor a contenção das compras na impossibilidade da expansão das vendas... Cavallo que o diga, bem aqui ao lado. Pois, tanto acolá como cá, não estamos importando muito (7,4% do PIB). O triste é que continuamos exportando pouco (7,3 %). Média global: 13%.
A anta bota a culpa no protecionismo dos outros. A tigrada, não. Sem saber que o tal de ‘‘acesso aos mercados dos ricos’’ constitui um sonho impossível, os tigres vão até lá e vendem de tudo para todos. Com marcas próprias.
Secos & Molhados
Patinando
No primeiro terço do ano (janeiro/abril), aumento de 14,1% nas exportações e de 18,8% nas importações. Com déficit de US$ 558 milhões (Secex). Mesmo com o real ganhando no período 12% de competitividade cambial na média das 45 principais economias do mundo (Global Invest).
Recaída
Eis que o neocepalismo estruturalista rebrota na sentença de David de Ferranti, vice-presidente do Banco Mundial. Em entrevista ao jornal Valor, de ontem, ele pontifica: o Brasil deve deixar de lado esse negócio chique de exportar manufaturas e reagrupar todas as baterias nas vendas de produtos primários...
Como é que é ?
Pois é. David de Ferranti sustenta que nossa vocação para o mercado global estaria na ‘‘exploração inteligente’’ de nossos recursos naturais abundantes e de nossos recursos humanos generosos... Acuda-nos, Barão de Mauá!
Preço alto
Foi assim que a Cepal deixou o Brasil e a América Latina reféns de economias protegidas e acomodadas, de baixa escolaridade e pouca eficiência - geradoras de empregos ruins com salários péssimos. O verdadeiro DNA do subdesenvolvimento.
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