Joelmir Beting
Os economistas adivinharam nove das duas últimas recessões da economia americana. Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia (1970)
Não parou por quê?
A cartomância sobre o pouso forçado (hard landing) da águia americana, ao fim e ao cabo de toda uma Década de Ouro, começou em 22 de novembro do ano passado. O incensado sacerdote financeiro Stephen Roach, economista-chefe do Morgan Stanley Dean Witter, pespegou em artigo publicado simultaneamente pelo The New York Times e pelo The Financial Times: Minha estimativa é a de que há 40% de chance de ocorrer recessão nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2001. Para mim, isso equivale hoje a um alerta máximo.
O tal de mercado tremeu nas bases e passou um Natal jururu. Desacelerado desde agosto, o PIB de quase US$ 10 trilhões, a dólar de dezembro, acabou fechando o último trimestre do ano com expansão anualizada de apenas 1,4%.
No dia 8 de janeiro, Stephen Roach saiu outra vez na pole, dentre todos os cenaristas de prontidão. Nos mesmos jornais, baixou decreto: Minha previsão de uma recessão plena para os Estados Unidos, neste primeiro trimestre, deixa de ser uma conjectura. Temos de acatar a verdade: já estamos em recessão.
Não era mais previsão. Era uma aferição. E deu manchete em todo o mundo, lembram-se? E tome reversão de expectativas, redesenho de cenários, interrupção de projetos, protelação de negócios... Nos Estados Unidos e no mundo.
É bom lembrar que o organismo econômico é um animal social depressivo por natureza. Se nele o otimismo nada melhora, o pessimismo tudo piora... O que só faz por aumentar o prestígio profissional dos cenaristas da sinistrose, gurus prediletos da mídia coisa-preta.
E não deu outra. Em 25 de janeiro, depondo na Comissão de Orçamento do Senado, Alan Greenspan, senhor dos mercados, suspirou fundo na justificativa da redução dos juros do Fed e no endosso do plano de redução dos impostos de Bush: A economia americana está passando por uma dramática desaceleração. Neste momento, provavelmente, estamos muito perto do crescimento zero.
Resultado: o obeso PIB americano emplacou no primeiro trimestre um crescimento anualizado de 2%. Com direito a um aumento real de 0,90% no produto per capita de US$ 36.120.
Sem recessão (marcha à ré) nem estagnação (crescimento zero).
Um primeiro trimestre de 2001, sazonalmente frio, mas de reaceleração sobre o avanço de apenas 1,4% no último trimestre de 2000, sazonalmente quente.
Secos & Molhados
E agora, Roach?
Profetas do passado, os cenaristas apelam para a explicação ligeirinha: Houve reversão da reversão porque tomaram providências com base em nossas advertências. Quer dizer: os pessimistas nunca erram.
Bola de cristal
A chutometria recheada de álgebra revela-se desconcertada para o restante de 2001. Neste segundo quadrimestre do ano, ocorre a colheita positiva da redução fatiada dos juros do Fed. Já se fala, para todo o ano, em PIB de até 3,5%. Com ou sem o retempero da confiança dos consumidores e dos empreendedores.
Sem mistério
A implosão da irrational exuberance de Wall Street desponta como uma solução e não um problema para o vôo sustentável da águia. Mas a surpresa do primeiro trimestre belisca a onisciência do Fed. Cujo vice-presidente, Roger Ferguson, acaba de confessar a Paul Krugman: O que nós do Fed sabemos e o resto dos mortais não sabe? Pouquíssimo, se é que sabemos alguma coisa.
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