‘‘Poupança de energia lembra a poupança de São Lucas. Para quem poupança é sofrimento e privação. Mas ainda preferível ao apagão.’’
Reynaldo Wertham, consultor de energia
Todos na penumbra
Ficamos assim combinados: quem exceder a cota média de
consumo de eletricidade vai ter de pagar tarifas punitivas de até 15 vezes mais caras. Tais como as multas por excesso de velocidade no trânsito.
O plano de contenção de consumo excedente deve entrar
em vigor em junho. Com direito a cortes de oferta (racionamento) a partir de julho ou agosto se o plano negar fogo em junho. O esquema será afinado agora em maio pelo Conselho Nacional de Política Energética.
Cujos titulares apostam em poupança de até 15% com a
aplicação do regime de cotas e de multas. Sem mistério: o órgão mais sensível do homem ainda é o bolso.
O esquema junta o útil de rebaixar a gastança de
energia com o agradável de não atiçar a gula da carestia. Descarta-se com ele a idéia ladina e recorrente de um tarifaço catequético nas empresas e nas famílias. O tarifaço faria a alegria das empresas de energia ou das burras do Tesouro (que se apropriaria do sobrepreço). Mas, certamente, não passaria pelo crivo da equipe econômica, refém consentida de metas inflacionárias leoninas.
Sobram dúvidas na praça sobre a metodologia das cotas e
das multas. O plano vai ter de apelar para campanhas de esclarecimento. Consumidores residenciais têm arquivo ou memória das contas da luz, mas não das cotas de consumo. Como as contas são alteradas por reajustes tarifários, o jeito é cuidar de saber em que faixa de consumo (ou de cota) estamos navegando.
Sabe-se que na média da classe média a faixa de consumo
mensal de maior abrangência vai de 100 kW/h a 500 kW/h. O estouro da cota média dentro dessa banda implicará multa equivalente a cinco vezes a conta da luz - sobre o excedente consumido.
Única certeza, por enquanto: o desperdício de energia
ainda é uma fuzarca e a demanda da própria acaba de empatar com a oferta reprimida pelos reservatórios desfalcados. A expansão dessa oferta, até novembro, está descartada. O sistema hidrogerador penetra justamente agora na entressafra das águas do Centro-Sul.
Investimentos em expansão, modernização, diversificação
e conservação de energia estão em andamento e/ou na boca do forno.
O problema é que os projetos são de arrastada gestação
- incluído o mercado suplementar das novas usinas a óleo e a gás. Ademais, os investidores de risco e os titulares dos projetos ainda aguardam uma indicação definitiva para os marcos (des)regulatórios do sistema. O negócio (de capital intensivo e demorado retorno) exige definição das regras do jogo e segurança jurídica dos contratos.Secos & Molhados
Calor e luz
O Fórum Brasileiro de Energia, recém-realizado em São
Paulo, juntou toda a cadeia produtiva e casou setor público e setor privado no trato da modelagem e da operação do sistema. Promovido pela Abdib, entidade nacional das empresas de infra-estrutura e indústria de base, os debates geraram também luz e não apenas calor.
Pelo cofre
Houve certo consenso do setor em defesa da
‘‘dolarização’’ das tarifas. Em nome das importações de petróleo
gás, máquinas, equipamentos, empréstimos. Além da energia já dolarizada de Itaipu. A equipe econômica já se antecipou: ‘‘Negativo! Dolarizar e reindexar é só começar.’’
Para todos
Com ou sem racionamento aí pela proa, o presidente da
Eletrobrás, Cláudio Ávila, lembra que as distribuidoras terão de continuar universalizando o fio da luz para os sem-fio da pobreza urbana e dos locais remotos. Diz ele: ‘‘Não vamos punir ainda mais quem já está no racionamento desde Pedro Álvares Cabral.’’
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