Joelmir Beting
Certos políticos brasileiros comportam-se como o tarado da anedota: apenas um homem normal, mas que se deixa pegar em flagrante. Sérgio Porto (1923-1968), Stanislaw Ponte PretaDo podre poder
O já famigerado sistema de votação secreta do Senado brasileiro funciona exatamente como presídio de segurança máxima do Rio de Janeiro: cada um deles foi montado com o propósito de ser violado.
A violação faz a moeda política dos arreglos planaltinos que não podem ser negociados em votação aberta. Assim como o rótulo de segurança máxima encobre movimentos táticos do crime organizado por dentro de um aparelho estatal desmoralizado.
Coisas da Botocúndia S.A. Não se deve confiar em votação secreta de coisa nenhuma dentro de um Congresso que se esmera em quebrar o sigilo bancário e o sigilo fiscal da cidadania em nome da lei, da ordem e do Fisco. Desfecho digno de uma democracia Frankenstein: o Executivo legisla, o Legislativo julga e o Judiciário executa.
De resto, um senador solidário suspira no palco dourado da TV do Senado: Afinal, a corrupção é universal. Faltou dizer: o que não é universal é a impunidade do corrupto, do corrompido, do corruptor.
Sob certas condições jurídicas, a coisa é ainda mais grave: a impunidade já virou impunibilidade. Ou seja: é proibido punir.
A impunibilidade é desfrutada pelos que se acobertam sob o guarda-chuva da imunidade parlamentar. Um privilégio originário do Brasil imperial. E que levou o filósofo Barão de Itararé a disparar nos tempos do Estado Novo: A postura do político brasileiro é realmente ovípara: ele vive às claras, devora as gemas e não despreza as cascas.
O mesmo privilégio da impunibilidade patrocina as falcatruas do chamado colarinho-branco, o anacronismo do Código Penal, a sucata física do aparelho judiciário entulhado e a licença-para-matar concedida em lei a menores de até 18 anos. Eles podem dirigir automóvel, podem votar para presidente, mas não podem ser responsabilizados nem mesmo em delitos flagrados de estupro, seqüestro, latrocínio, formação de quadrilha, tráfico de drogas...
Poder a gente escreve com as mesmas letras de podre. São as cinco letras que choram. Dizem os italianos, entre dois suspiros de resignação, que política e corrupção são irmãs siamesas. A própria corrupção na economia não deixa de ser um subproduto da corrupção na política. Esta começa pelo acesso desinibido à chamada coisa pública de legisladores e administradores profissionalmente não gabaritados.
Tenho para mim que o incompetente, porém honesto, não existe. O incompetente que se propõe fazer pelo povo o que não sabe ou o que não pode deixa de ser honesto. É um charlatão. E isso não é democracia. É uma fraude.
Secos & molhados
Tocadores
A corrupção política igualmente se manifesta na cultura eleitoreira que despreza o guarda-livros e gratifica o mestre-de-obras. Incluído o do padrão rouba, mas faz. Os tocadores de obras colocam o verbo à frente da verba e fazem as obras sem fazer as contas e sem pagar as próprias.
Infladores
Pior: fazem estradas de 800 metros por quilômetro, gastando 1.450 quilos de cimento por tonelada de concreto. O superfaturamento vai da usina elétrica à merenda escolar. Com direito a um sobrepreço adicional a título de prêmio de risco (do atraso ou do calote). Sem contar o pedágio do propinódromo.
Empreguistas
E o que dizer do empreguismo atávico, moeda eleitoral preciosa? A meritocracia que se dane. O corporativismo estrábico prefere amparar os parasitas e realizar serviços degradados. Ele se contenta em fazer passeatas contra salários aviltados e carreiras idem. Atrapalhando o tráfego.
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