Joelmir Beting
O maior desafio da Argentina é o crescimento e não o endividamento. Assim sendo, o que importa é o denominador e não o numerador.
Domingo Cavallo, ministro argentino da Economia
Cavalgada platina
O ministro Domingo Cavallo escreveu no The Financial Times da quarta-feira um longo artigo que diz quase tudo no título: A dívida não é o real problema da Argentina. O problema é que no dia seguinte a Argentina anunciou a reestruturação e o alongamento da dívida. Com o novo presidente do Banco Central, Roque Maccarone, jurando, por todos os juros, que tal decisão afasta os perigos e alivia os mercados.
De prontidão na cabeceira do paciente, o FMI torce o nariz para tudo o que se passa em Buenos Aires. Enquanto o vice-direto-geral do Fundo, Stanley Fischer, diz que a situação da Argentina é dramática, o economista-chefe da venerável instituição, Michael Mussa, suspira fundo e deixa escapar: o ministro Cavallo deveria falar menos e fazer mais. Uau!
Pois voltemos às falas do ministro argentino. Ele sustenta que a dívida pública total, interna e externa, não passa de 51% do PIB (a do Brasil, só a interna, alcançou 53% do PIB, em março). E mais: o prazo médio do serviço da dívida é de confortáveis 8,3 anos, bem acima da média de outros países emergentes.
O problema é que a dívida da Argentina, interna e externa, é denominada, como nenhuma outra, em moeda estrangeira (sin embargo, o dólar). Cavallo rebate: a economia argentina, também como nenhuma outra, funciona em dólar, sob o manto legal da lei de conversibilidade, com paridade unitária.
E sem perder a fleugma e a rima: A solução para os problemas do endividamento deve ser buscada no crescimento do produto e não no reescalonamento da dívida. É difícil imaginar uma estratégia de crescimento sustentável que tenha como ponto de partida a quebra emergencial de contratos - sejam eles os financeiros ou os cambiais.
Querem mais? O ministro completa: É absurdo imaginar que um programa de recuperação nacional, fundado sobre princípios de mercado, venha a começar pela reestruturação da dívida.
Bem, faltou avisar o vice-ministro da Economia, Daniel Marx.
No dia seguinte, quinta-feira, ele anunciou aos quatro ventos a troca pactuada de bônus de curto prazo (2001) por outros de longo prazo (de 2005 a 2021). Uma operação da ordem de US$ 20 bilhões, que já estaria endossada por oito ou nove grandes credores, segundo o próprio Marx. Que é do ramo: ele acumula o cargo de secretário de Finanças. Mas quem vai se explicar com a banca internacional, em Washington e Nova York, é o ministro Cavallo. Que nada mais tem dito sobre a proposta guinada no câmbio, a da tríade dólar/peso/euro.
Secos & molhados
Passo a passo
- Domingo Cavallo deixa claro que não tem plano de choque na maleta do laptop. O crescimento econômico, colocado como prioridade primeira, resultaria de um punhado de políticas com implementação fatiada. Uma escalada cautelosa, passo a passo.
Sem pacotaço
- Não haverá um Plano Cavallo. A coisa vai da reforma tributária à reforma previdenciária. Vai da reestruturação da dívida à flexibilização da paridade peso/dólar. Vai da austeridade fiscal à renegociação do Mercosul. Fácil, não? Tem contágio - Pelo cheiro da brilhantina, não há saída de curto prazo para a paranóia argentina. O regime de sobressalto deles continuará atrapalhando o rumo, o ritmo e o prumo da convalescença brasileira. E da maturação do Mercosul.
Até quando?
- Domingo Cavallo entra na contagem regressiva de um preceito político severo: expectativas positivas frustradas são mais incendiárias que necessidades antigas nunca atendidas.





