Joelmir Beting
Se o governo controlar o irrelevante, acabará inteiramente descontrolado.
Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica
Como é que é?
Dólar valendo bem mais do que pesa e juros, por causa disso, subindo no piso e no teto estão promovendo, nesta virada para o segundo quadrimestre, uma reversão da reversão das expectativas dos agentes econômicos - dos investidores ressabiados numa ponta aos consumidores amedrontados na outra.
Estamos jogando na lata de lixo da sinistrose intermitente a recuperação do ano passado e a manutenção desse rumo e desse ritmo nesta travessia de 2001. Um ano que se pretendia como de consolidação do processo de retomada do crescimento econômico com estabilidade monetária. Por toda a década aí pela proa.
A paranóia cambial, híbrido de neuras importadas com crises aqui fabricadas, desfila o seguinte balanço pelo dólar comercial: em 12 meses, fechados agora em abril, desvalorização nominal ponta a ponta de 27,12%. Ou se preferem: desvalorização nominal de 17,34% de janeiro a abril, contra 7,97% em todo o ano passado.
Essa máxi nominal de 27,12%, em 12 meses, tem massa crítica para desestabilizar os preços relativos e retemperar a inflação de custos na produção ou no atacado. Mas é preciso não perder de vista o que realmente conta na dinâmica do setor produtivo: a máxi real, vulgo taxa efetiva de câmbio.
Se descontado o IGP-M, índice favorito do mercado financeiro, a máxi real, em 12 meses, contenta-se com 16,04%. Se recalibrada igualmente pela inflação americana (desvalorização do próprio dólar), a máxi real recua para perto de 14%. E, se levada em conta uma cesta balanceada de 14 moedas (incluído o dólar), aí temos que a máxi real estaria em torno de 11% (versus 27,12% da máxi nominal).
Essa cesta de 14 moedas dá cobertura a 94% dos nossos fluxos externos de comércio e a 98% dos nossos fluxos externos de capital.
Cesta ponderada pelos fluxos de comércio e de capital em cada uma dessas moedas, mais as respectivas taxas de inflação interna. Pela abrangência da metodologia, a taxa efetiva real não pode ser atualizada no dia nem na semana. Mas aceita a reestimativa mensal.
E torna-se confiável na mediana trimestral.
Insisto nesse assunto indigesto porque é dele que se deve sacar o impacto verdadeiro do câmbio, a favor ou contra, no desempenho dos mercados e no planejamento dos negócios. Ou mesmo na análise dos espasmos do déficit externo em conta corrente. Onde um dólar sobrevalorizado tem a perversa mania estatística de reduzir nosso PIB em dólares, ampliando o déficit em relação ao PIB.
Exemplo: em 1998, dólar ainda subvalorizado, o déficit externo foi de US$ 33,4 bilhões, então equivalente a 4,23% do PIB. No mês passado, dólar já sobrevalorizado, rodamos com déficit menor, em 12 meses, de US$ 27,2 bilhões, mas já da ordem de 4,85% do PIB.
Secos & molhados
Sem choque
- No choque cambial de 1999, a máxi real do ano foi de 37%. Agora, máxi real de 11% (que pode ser ainda menor no ano) não produz reversão dramática na balança comercial ainda no vermelho. Nem justifica o pânico do Copom, apavorado com algum repasse cambial para o IPCA 2001.
Com medo
- Risco maior aparece nas solenes atas do próprio Copom -as da exposição de motivos para as duas puxadas da Selic. Houve erro de diagnóstico e de terapêutica na primeira, com repetição na segunda. E com viés ou insistência no erro para uma terceira.
Pela culatra
- Arrocho monetário é remédio amargo para surtos de inflação de demanda. Em choques de inflação de custos, esse mesmo remédio vira veneno. Que tal atacar custos cambiais com sobrecarga de custos financeiros?
Sinal ruim
- Outro cochilo: o governo avisa que estuda redução de tarifas de importação para compensar o novo patamar do câmbio. Admitir um novo patamar é o mesmo que sinalizar que o dólar não mais recuará para perto de R$ 2,00. O que recomenda o repasse de custos para preços.
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