‘‘A contagem regressiva para o racionamento de energia está ligada. Já estamos consumindo em abril todas as nossas águas de agosto.’’
José Goldenberg, físico e consultor
Sistema vaga-lume?
Numa inundação anunciada, qual seria o procedimento mais inteligente: a) elevar o nível das pontes?; b) rebaixar o leito dos rios? Num esvaziamento comprovado dos reservatórios, por falta de chuvas, qual seria o expediente apropriado: a) poupar ou conservar a força e a luz?; b) decretar o racionamento corretivo ou punitivo?
Conservar energia na seca é exatamente como elevar o nível das pontes na cheia. Uma solução permanente e não apenas de caráter emergencial ou transitório. Temos de fazer do limão do atual transe da energia a doce limonada da poupança orquestrada da própria. Um desafio cultural: encaixar em nossa secular ‘‘cultura da abundância’’ um grito de guerra contra sua irmã siamesa, a ‘‘cultura do desperdício’’. Quando a idéia do racionamento em rodízio e por cotas trafega pelo fio de navalha da margem de segurança inferior a 3% (entre a potência instalada e a demanda aparente), aí o negócio é reduzir no grito a margem de desperdício, estimada em 15% da energia gerada. Algo sem paralelo em países civilizados, pós ‘‘oil-shock’’ da Opep.
Nossas perdas de eletricidade batem ponto em todos os elos da cadeia do sistema: na gestão dos reservatórios, na obsolescência não compensada das usinas com mais de 25 anos, nos sistemas de transmissão em massa, nas redes de distribuição capilar, na baixa eficiência energética de máquinas e motores de uso corporativo, no ‘‘efeito carroça’’ dos equipamentos domésticos e, fechando a roda, no esbanjamento energívoro de governos, cidades, empresas, famílias, pessoas... Que tal deitar fora toda a energia de uma Itaipu?
Eis a pesada agenda do Fórum Brasileiro de Energia Elétrica, que se instala, hoje, em São Paulo, no Centro de Convenções Imigrantes. Evento de três dias, promovido pela Abdib, a entidade nacional das indústrias de base e de infra-estrutura. No quadro do programa Infra 2020, a Abdib reúne setor público e setor privado para o desarme coletivo do apagão sem opção. Ou, como diz José Augusto Marques, da Abdib, tenta-se evitar o vexame de um sistema vaga-lume - acende, apaga, acende, apaga...
Autoridades, empresários, investidores, acadêmicos e consultores pretendem classificar alternativas para o racionamento (dramatizando os expedientes de conservação ou de racionalização).
Eles repassarão o alargamento da matriz energética (fontes alternativas) e discutirão novos padrões de financiamento para a expansão, modernização e diversificação do sistema. Pela primeira vez no País, em eventos do gênero, investidores, empreendedores e operadores têm encontro marcado numa exposição de projetos instalada no rodapé do Fórum.
Secos & molhados
Tarifaço?
- O governo descarta choque tarifário catequético na ponta do consumo perdulário de energia. Prefere um regime de cotas pontuais. Quem estourar a cota, aí paga sobrepreço ardido. Um tarifaço usinado pela área energética seria barrado pela equipe econômica. Esta, de olho rútilo no ‘‘pass-through’’ da inflação cambial.
Novo perfil
- Na vigília do racionamento e/ou do tarifaço, o consumidor tende a informar-se sobre a ‘‘eficiência energética’’ de lâmpadas, chuveiros, aparelhos. Assim como deu de cobrar informação completa sobre alimentos embalados. Ele não mais se contenta em xingar a mãe da distribuidora em caso de apagão acidental.
Todos a bordo
- O Fórum de Energia da Abdib, que se pretende permanecer de plantão, conta com os ministros de Energia, Planejamento, Meio Ambiente e com os presidentes da Aneel, ONS, BNDES, Eletrobrás, Petrobrás. Atração especial, amanhã: Gray Davis, governador da Califórnia. Com seu sistema vaga-lume.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup