‘‘Ao elevar outra vez os juros, o banco central brasileiro introduz um choque de demanda num problema que não é monetário.’’
Allan Meltzer, economista americano
Remédio ou veneno?
Safra de balanços no declive e onda de demissões no aclive forçaram o Fed americano a antecipar nova redução da taxa básica de juros. De 5% para 4,50%. Corte de um décimo. Sem mistério.
Cá por essas bandas e bondes, o Copom se deixa levar pela alta transitória e especulativa do dólar para elevar em meio ponto porcentual a taxa básica de juros. Contramão com exposição de motivos: a bolha cambial ensaia desencadear uma remarcação inflacionária aí pela proa de maio e junho. Isso atentaria contra a meta do IPCA gregoriano de 4% (que já estaria embicado para 4,8%).
Louve-se a preocupação da autoridade monetária com a estabilização do real a partir da reacomodação do dólar. O regime de metas inflacionárias (inflation targeting) foi inventado pelos ingleses exatamente para controlar a inflação menos com purgantes corretivos e mais com cápsulas preventivas.
Para o Copom, a alta do dólar tende a ser repassada dos custos de produção para os preços de consumo (por onde transitam as sondas do IPCA). Esse repasse, vulgo ‘‘pass-trough’’, nada teria a ver com alguma pressão de demanda na crista de um PIB reaquecido pela faixa de 4,5%.
Daí a observação do professor Allan Meltzer, principal assessor do Congresso americano para assuntos do FMI. Durante debate na FGV-SP, quarta-feira, antes da decisão do Copom, Meltzer disse que seria um ‘‘erro de diagnóstico’’ uma nova puxada da Selic: l) a tensão inflacionária engastada na bolha cambial tem a ver com ‘‘inflação de custos’’ e não com ‘‘inflação de demanda’’; 2) novo aperto monetário seria um remédio para a segunda, mas um veneno para a primeira.
Ou será que aumentar os custos financeiros da produção, ao tempo em que se encarece a demanda da própria, será mesmo a melhor terapia para prevenir ou reverter a inflação? Allan Meltzer faltou dizer: e mui justamente na economia monetariamente mais arrochada do mundo, com crédito bancário abaixo de um terço do PIB. Ou como diz o cardiologista brasileiro Michel Batlouni: ‘‘Até overdose de água mineral mata algo mais que a sede...’’
O Copom prefere lembrar que o diferencial maior entre juros americanos e juros brasileiros favorece a distensão cambial: a) estimula os investidores americanos a injetar mais dólares no mercado brasileiro; b) encoraja os empresários (e banqueiros) brasileiros a empinar mais créditos ou a buscar mais dólares no mercado americano. Aliviado o câmbio, desarma-se o ‘‘pass-trough’’ inflacionário ou inflacionista. Certo?
Secos & molhados
Ressalva 1
- Pessoalmente, entendo que choques monetários preventivos ou purgativos perderam a eficácia endeusada pela escola monetarista de Chicago. De custos ou de demanda, a inflação anual está na jaula de um dígito por obra e graça dos ganhos de modernização das empresas e dos coices de competição nos mercados. Como nunca antes.
Ressalva 2
- Foi o que se viu no ‘‘overshooting’’ cambial de 1999, hoje esquecido por nove em cada dez analistas alarmados. Máxi nominal de quase 80% em janeiro/fevereiro (a coisa chegou a R$ 2,23 por dólar) resultou em deflação de 0,17% no IPCA de maio... Por quê? Simplesmente porque não houve repasse de custos comprovados para preços finais de mercado. Nem com PIB de 4,5% em 2000.
Ressalva 3
- Se o Copom está a fim de imolar sangue de cordeiro no altar do IPCA de 4%, esqueça do arrocho monetário e passe a cobrar da equipe econômica um chega-pra-lá no reajuste tarifário de caráter fiscal. E, se o problema é fiscal, cada meio ponto porcentual da Selic aumenta a dívida pública em R$ 2,7 bilhões. Tiro no dedão.

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