‘‘Os americanos são grandes negociadores porque são poderosos. Ou não seriam eles poderosos porque são grandes negociadores?’’
George Stigler (1911-1991), Prêmio Nobel de Economia (1982)
Brasil isolado?
O presidente Fernando Henrique Cardoso realiza a mais importante missão externa de um chefe de Estado brasileiro - em toda a nossa opaca História das relações internacionais. Decide-se, de sexta a domingo, em Quebec, no Canadá, o ‘‘sentido político’’ da futura Área de Livre Comércio das Américas, vulgo Alca.
O Brasil de FHC veste-se de negociador ressabiado e reticente. A iniciativa da criação do megabloco de US$ 11,8 trilhões (PIB conjunto de 1999 dos 34 países signatários) partiu do salão oval da Casa Branca, em 1994, ainda no primeiro mandato de Bill Clinton. Ou antes da primeira eleição de FHC.
A posição brasileira é meridiana: 1) a Alca é uma opção e não um destino (nas palavras do chanceler Celso Lafer); 2) antes de instalar o megabloco pan-americano, o ideal seria maturar e ampliar o minibloco do Mercosul (liderado fisicamente pelo Brasil); 3) um acordo bilateral com os Estados Unidos seria mais produtivo para o Brasil que a geléia real de uma Alca (que ousará tratar igualmente os desiguais).
O Brasil desembarca em Quebec festejando uma primeira vitória diplomática na costura da Alca: o megabloco de 785 milhões de consumidores em potencial (censo continental de 1998) será negociado até 31 de janeiro de 2005 para ser acionado a partir de 1.º de janeiro de 2006. Os Estados Unidos de Clinton/Bush brigaram duramente para antecipar a ignição da Alca já a partir de janeiro de 2003.
A posição política do Brasil, em Quebec, está fragilizada pela falta de consenso na América Latina e no próprio Mercosul. Não conseguimos vender nosso peixe aos parceiros hispânicos. O México ganhou musculatura com o Nafta e tem interesse no apressamento da Alca. Para os mexicanos, o Nafta já é a Alca. Eles estão de costas para a América Latina. As exportações para o Big Brother cresceram 435% em sete anos e geraram 2,1 milhões de novos empregos.
América Central e Caribe têm historicamente com os Estados Unidos uma parceria de 75% no comércio exterior e de 84% nos investimentos estrangeiros. A Venezuela é o país mais ‘‘americanizado’’ da América do Sul (84% dos carros licenciados no país são made in USA). O Chile morre de amores pelo Nafta desde 1993 e finaliza acordo bilateral de comércio com Washington.
O Equador simplesmente adotou o dólar americano como moeda nacional (o dólar seria a moeda comum da Alca antes de 2015, segundo Fred Bergsten, citado por Domingo Cavallo). Sim, a Argentina já entalada na paridade peso/dólar está mais a fim da Alca do que do Mercosul. E, fechando a roda, a Co(ca)lômbia acaba de se deixar cobrir pelo guarda-chuva do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Que tal?
Secos & Molhados
Sem apoio?
- Vamos ter mesmo de fazer carreira-solo na negociação do formato e do conteúdo da Alca. Até porque nossa carteira de interesses comerciais (e políticos) não bate com a de nenhum parceiro latino-americano. Nem mesmo no café, no açúcar, nos têxteis, nas patentes ou na TV digital.
Sem força?
- Em compensação, o presidente Bush desembarca em Quebec ainda sem as britadeiras do Trade Promotion Auctority (TPA), novo rótulo para o ‘‘fast track’’, carta branca do Congresso para a assinatura presidencial de acordos de comércio exterior. O Congresso continua com o poder de emenda e de veto. Ou seja: Bush ainda não bucha nem desembucha.
Sem tempo?
- Conseguirá o Brasil entrar em ‘‘estado atlético’’ para a Alca 2006? Dizem que o prazo é curto. Negativo. Nossa ‘‘cultura da véspera’’ nos leva a deixar todos os preparativos para a 25.ª hora de qualquer compromisso com aviso prévio. Nunca haveria tempo suficiente para 2003 ou para 2006. Nem para 2010 ou 2020.

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