‘‘Governo responsável nunca passa aviso prévio sobre câmbio. Na política cambial, concede-se ao governo o direito de mentir.’’
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
Fogos de artifício
Foi no dia 1º de abril de 1991 que se deu a conversão em lei de 10.000 austrais por 1 dólar americano. A lei da conversibilidade compulsória deu carona à paridade fixa de 1 dólar igual a 1 peso, no mesmo ato ressuscitado. Conversibilidade perene com paridade por tempo indeterminado, sob regime de ‘‘currency board’’, discursou o autor da alquimia monetária, o ministro Domingo Cavallo.
Foi no dia 6 de abril de 2001, na solenidade comemorativa do 10.º aniversário da conversibilidade pétrea (com paridade pero no mucho), que o mesmo Domingo Cavallo, reconduzido ao leme da nau agora sem norte, renovou as promessas do batismo: ‘‘La nuestra conversibilidad se va a mantener para siempre!’’
Economista tecnicamente competente e politicamente populista, o ministro argentino aproveitou a rede nacional de TV para refogar o orgulho nacional dos argentinos a partir de uma fantasia atribuída aos brasileiros: ‘‘O Brasil há meses especula contra nosso regime cambial. Pois os brasileiros estão agora desesperados e vão mesmo perder como loucos. Eles que percam e percam muito! Assim, acabarão aprendendo a respeitar o direito dos argentinos de escolherem livremente sua moeda.’’
Pesquisa do Gallup, brandida por Cavallo na mesma noite de 6 de abril, dava como respaldo popular à manutenção do regime de conversibilidade o soberbo índice de 81%. Sim, a despeito de o desemprego ter disparado, em dez anos, de 6,1% para 14,6%. Ou de os bens de consumo terem subido, no mesmo período, por dentro da média inflacionária próxima de zero, em nada menos de 135%. E os serviços públicos, em 187%.
Sem mistério: 81% dos argentinos permanecem casados com a conversibilidade exatamente porque 83% das dívidas privadas de pessoas, famílias e empresas estão contratadas em dólares. Ou 93% das dívidas públicas. Fonte: Martin Redrado, economista-chefe da Fundação Capital. Para quem uma ruptura do câmbio produziria uma bolha de desvalorização (overshooting) de três dígitos, com direito a um repasse inflacionário (pass-through) de dois dígitos. Além, claro, da quebradeira em cascata dos endividados filhos de Eva.
Eis que Domingo Cavallo, fiador da conversibilidade, solta o balão-de-ensaio (com pinta de aviso prévio irresponsável): que tal atrelar o peso também ao euro e não apenas ao dólar? Quando, senhor ministro? Se e quando o euro assumir a paridade 1 x 1 com o mesmo dólar. Na semana passada, a moeda única européia transitou pela média de US$ 0,89. No meio a meio, o peso teria sido desvalorizado em 6%.
Secos & Molhados
Como é que é?
- A adoção de um padrão monetário tripartite (dólar-peso-euro) romperia com o atual regime da paridade fixa. Sim, na hipótese mui provável de não vingar um empate técnico do euro com o dólar em ambiente de flutuação cambial na Eurolândia.
E a promessa ?
- Domingo Cavallo já se explicou: dá para ‘‘flexibilizar’’ a paridade do peso com o dólar nas bitolas do euro, tomado como ‘‘banda’’ de aluguel. Sem ferir a intocabilidade do regime de conversibilidade... Paridade não é conversibilidade.
Subterfúgio
- Economistas argentinos dizem que o balão-de-ensaio de Cavallo está recheado de fogos de artifício. Objetivo: desviar o foco da cobrança popular centrada numa imediata reativação da economia e do emprego.
E nós com isso?
- Por causa disso, cá por estas plagas e pragas, o real perde valor em dólar e o Copom refugia-se em nova alta dos juros - esse veneno vestido de remédio.

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