Joelmir Beting
Na vida econômica, em especial, o que conta não são as intenções justas; são as decisões certas.
Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia (1987)
Virou estagflação?
O dilema existencial de Greenspan & Cia. vale por um postulado da escola monetarista de Chicago: a) se rebaixar ainda mais os juros, eclodirão certas pressões de demanda para uma forte rebrota inflacionária; b) se congelar os juros nos níveis atuais, surgirão inclinações ainda maiores para o desaquecimento e o desemprego. A decisão sobre os juros está marcada para 15 de maio. Salvo se algum sinal agudo de mais inflação ou de mais recessão antecipar a canetada do Fed.
Surpreendentemente, o que se observa na poeira do pouso da águia americana, desde novembro, é uma combinação indesejável de economia em baixa com carestia em alta. Vulgo stagflation. O que complica ainda mais a decisão corretiva da autoridade monetária.
A inflação não saiu da jaula quando o PIB estava superaquecido, perto de 6%, com o índice de desemprego trafegando abaixo de 4%. Por que haveria de romper as grades, com o mesmo PIB agora abaixo de 1% e o desemprego já em 4,3%? E com o barômetro da confiança dos consumidores igualmente em queda livre?
A explicação é tortuosa. Independentemente do nível da atividade econômica, deu-se nos últimos 15 meses um recuo na taxa de expansão da produtividade do capital e do trabalho. Por obra e (des)graça de forte redução nos gastos das empresas com novas tecnologias de produto, de produção, de logística e de gestão. Uma trégua na revolução tecnológica dos anos 90.
Ou se preferem: os custos pararam de despencar a toque de Midas. O que está despencando é o mercado de bens de capital, especialmente nos fronts do datacom e do telecom. Ressaca que se reflete no tombo das ações desses fabricantes na Nyse e na Nasdaq.
Balanço preliminar do ajuste cirúrgico, assinado pelo próprio Fed: a ocupação média da capacidade industrial instalada baixou de 92,4%, em março de 2000, para 78,1%, em fevereiro de 2001. Na primeira, recorde histórico do pós-guerra. Na segunda, nível mais baixo desde novembro de 1991. Análise da Merrill Lynch faz o grifo: a desaceleração americana foi desencadeada pela base dos investimentos produtivos e não pela ponta dos consumidores compulsivos.
Constatação tardia que não facilita a decisão do Fed em 15 de maio. Significa que um novo corte nos juros pode não reaquecer a demanda agregada. E, se esta reagir, não desengavetará projetos nem reaquecerá empregos. A reação faria uso da capacidade ociosa de máquinas, homens, serviços e capitais hoje na ativa.
SECOS & MOLHADOS





