‘‘Peixe de pobre dá no Sul; peixe de rico dá no Norte. Ou Deus fez a coisa errada ou é muita falta de sorte.’’
João José Valadão, repentista cearense
Vai sobrar peixe
No folclore jornalístico, a gente recepcionava a Páscoa com a manchete indefectível: ‘‘Vai faltar peixe na Semana Santa.’’ Assim como pespegava na chegada de Finados: ‘‘Preços das flores pela hora da morte.’’ Ou, na imprensa baiana, na última vigília do Papai Noel: ‘‘Quando menos se espera, chega o Natal.’’
Fiquemos no peixe nosso de cada dia. De cada dia? Nem pensar. O consumo por habitante está em declínio desde os anos 70. A resistência do boi, a escalada do frango e a renovação do porco baniram os frutos da água do cardápio nacional. O setor disfarça o vexame no consumo residual fora do lar e nos mercados ribeirinhos e litorâneos da pesca artesanal, de mero arrimo familiar.
Sim, vai sobrar peixe nesta Semana Santa. E não por aumento da oferta, mas por retração continuada da demanda. Primeiro, porque os católicos de batismo abandonaram o preceito religioso da abstinência de outras carnes. Segundo, porque as outras carnes tornaram-se cada vez mais competitivas em relação aos pescados de todo tipo. Terceiro, porque a poluição de rios, lagos e mares espanta mercados, afugenta ou dizima espécies e desencoraja investimentos.
A cidade de São Paulo contava com 144 peixarias nos idos de 1970. Hoje, menos de 30. Bancadas de feiras livres perderam clientela para supermercados com produtos frigorificados. Porém, sem o pique anterior das primeiras. O feirante José Márcio Dantino culpa a explosão das churrascarias nas cidades e rodovias. Não há como educar paladares da nova geração para a gula dos pescados.
A verdade é que a produção brasileira do ramo permanece estacionada abaixo de 800 mil toneladas por ano. Metade dela no marzão a perder de vista e de fundo. No ‘‘ranking’’ mundial da produção, segundo a FAO/ONU, ocupamos a 26.ª colocação. No ‘‘ranking’’ paralelo do consumo por habitante, aí rastejamos em 147.º lugar. A Bolívia aparece na 54.ª posição...
O diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura do Ministério da Agricultura, Gabriel Calzavara, diz que a produção brasileira deu de substituir o marca-passo do mercado interno pela aposta mais agressiva no mercado externo. As exportações saltaram de US$ 104 milhões, em 1998, para US$ 227 milhões, em 2000. Ainda assim, abaixo das importações, da ordem de US$ 275 milhões.
O detalhe: metade da fatura externa do setor vem da aqüicultura do camarão. Em valor, quase o dobro dos nossos embarques de atum. Gabriel Calzavara lembra que camarão e atum são as estrelas das duas únicas fronteiras ainda elásticas do Brasil pesqueiro: a aquicultura e a pesca oceânica. Onde a jangada não chega.
Secos & Molhados
Renovável
- A aquicultura desfruta de programas de governo. É o segmento que mais cresce no setor empresarial da pesca. O mesmo ocorre em todo o mundo, com expansão média de 11% ao ano na década passada.
Costeira
- A pesca costeira está no limite. Nossa plataforma continental é estreita (média de 55 milhas de largo e 190 metros de fundo). Dela extraímos, no máximo, 390 mil toneladas. Ainda com predominância da captura artesanal.
Oceânica
- Temos de desbravar a pesca oceânica, em águas profundas, com cardumes sem passaporte. A tecnologia é o único arpão. A competição nessas águas de ninguém é selvagem e a indústria brasileira não tem musculação adequada.
Tratados?
- Regulada por tratados internacionais, a pesca oceânica vive em estado de guerra. No momento, o Brasil trava com meio mundo, nos tribunais, a‘‘guerra do atum’’. Amanhã, nesta coluna.

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