Joelmir Beting
Bloco econômico só funciona quando todos ganham alguma coisa. Quando só um dos lados ganha, o bom negócio acaba para todos.
Robert Zoellick, representante comercial dos EUA
Alca ainda porosa
Nem janeiro de 2005 e muito menos janeiro de 2003. O parto de montanha da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em cesariana diplomática, acabou empurrado para janeiro de 2006. Decisão soberana da conferência ministerial de Buenos Aires, encerrada domingo. Um apronto geral para a conferência presidencial do Quebec na semana que vem.
A pesada agenda da integração comercial das três Américas ganha tempo extra para costurar acordos melindrosos sobre matérias relevantes. Vitória diplomática do Brasil, líder do movimento de protelação do megabloco hemisférico. Derrota inesperada dos Estados Unidos, cabo eleitoral da Alca 2003.
Pelo sim, pelo não, o presidente George Bush combina reuniões de trabalho com lideranças republicanas (e democratas) para sacar do Congresso, ainda este ano, o sinal verde do fast track. Que bicho é esse? Um mecanismo legislativo de via rápida para a celebração de acordos de comércio exterior bilaterais e multilaterais.
Assim credenciado, o governo negocia e assina o negociado. O Congresso aprova ou rejeita, a toque de caixa, sem introduzir nenhuma emenda. Isso confere força política ao governo para falar grosso na costura de acordos, contratos e tratados comerciais. Caso da Alca, prioridade de Washington.
Para dourar essa pílula - negada sistematicamente ao governo Clinton -, o tal de fast track passa a ostentar crachá de TPA (de Trade Promotion Authority). Resta saber se o presidente Bush, ainda sem o crachá TPA, dobrará ou não as resistências e reticências de FHC na Cúpula do Quebec. O Brasil ganhou o jogo do calendário e espera repetir a dose no embate do formato e do conteúdo da agenda.
Afinal, também na gestação da Área de Livre Comércio das Américas nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é necessariamente bom para a América Latina. O Brasil tem martelado o samba de uma nota só: antes de assinar a Alca, o certo seria maturar e ampliar o Mercosul. O representante americano para assuntos de comércio exterior, Robert Zoellick, titular do USTR, devolve a bola quadrada: ampliar o Mercosul antes da Alca é um truísmo, a Alca vai absorver o Mercosul e tragar o Nafta.
Com a observação do consultor brasileiro Cesar Souza, plantado em Washington e sócio do Monitor Group, de Boston: Truísmo é o presidente Bush querer monitorar a Alca sem antes obter a carta branca do Congresso. Democratas ou republicanos, os congressistas são avessos ao livre comércio. A diplomacia deles continua alugada por assuntos de segurança nacional e não por ensaios de abertura comercial.
Secos & Molhados
Megabloco
- Tido como processo irreversível, o advento da Alca parte hoje de um mercado que vai do Alasca à Patagônia. São 34 países (exceto Cuba) totalizando 785 milhões de habitantes e gerando um produto somado de US$ 11,8 trilhões. Do qual, 78% made in USA.
Já funciona
- As trocas comerciais dos 34 países da futura Alca somaram US$ 378 bilhões no ano passado. Com o livre comércio, esse intercâmbio saltaria, em dez anos, para US$ 1,5 trilhão, ou três vezes mais. Fonte: USTR.
Nossa metade
- Para o Brasil, os 33 parceiros da futura Alca responderam, em 2000, por 51% de todo o nosso comércio exterior. Os Estados Unidos, isoladamente, por 23%. Nos cálculos da Camex, uma Alca politicamente correta cobriria, até 2010, mais de dois terços do nosso intercâmbio global.
Depende
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Ainda assim, o ministro Celso Lafer prefere suspirar fundo: Para o Brasil, a Alca ainda é uma opção e não um destino.
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