Joelmir Beting
O livre comércio é o melhor atalho para a prosperidade global. Uma ruptura ou reversão desse processo seria uma tragédia.
Alan Greenspan, presidente do Fed/USA
O pulo da águia
Senhor dos mercados financeiros e voz mais influente do mundo pós-guerra fria, o professor Alan Greenspan acaba de vestir a camisa do neoliberalismo econômico em discurso por escrito no Congresso americano. Nenhuma surpresa, claro. Dizem os franceses que a globalização na poeira ainda não assentada da queda de todos os muros não passa de ardilosa maquinação do salão oval da Casa Branca. Globalização é neoliberalismo. Abaixo o neoprotecionismo.
Masturbação ideológica à parte, autoridade monetária digna do nome, sobretudo da estatura de Greenspan, tem o dever de ofício de atacar as barreiras comerciais ou feudais. Tais barreiras ainda retardam ou mesmo inviabilizam o livre intercâmbio de produtos e serviços entre nações e, mais recentemente, entre blocos de nações.
O interesse de Greenspan na abertura econômica é de caráter profissional. Mais do que ninguém, ele sabe que a inflação americana está trancafiada na jaula, desde os anos 80, não por obra da austeridade monetária do Fed nem da neutralidade fiscal de Clinton ou já agora de Bush. E, sim, por graça da competição dos mercados e da modernização das empresas.
A competição provoca a modernização que realimenta a competição. A modernização enquadra e rebaixa custos e a competição congela ou rebaixa preços (e margens). Como nunca antes na gloriosa carreira do capitalismo opulento. A inflação americana, no caso avaliada pelo respectivo core inflation, ficou pela média anual de 1,7% na Década de Ouro que passou. Mesmo com PIB perto de 6% e desemprego abaixo de 4%.
O livre comércio tem muito a ver com isso. O mercado americano, com seu protecionismo pontual ou tópico, é o mais aberto do mundo. Na indústria, a proteção intermodal, segundo a OCDE, trafega pela média de 4,2%, contra 8,3% na União Européia ou 16,7% no Japão. As importações totalizaram, em 2000, exatamente US$ 1,1 trilhão. Perto de 13% do PIB. Ou US$ 3 bilhões por dia.
Essa concorrência exacerbada, de fora para dentro, potencializa a cultura de competição já reinante no interior da economia e da sociedade. E tome choques encavalados de competição com modernização, despachando a temível inflação de demanda para as fímbrias do planeta Marte. Com ou sem austeridade monetária do próprio Greenspan. Que suspirou fundo, diante de deputados e senadores ressabiados: Só temos a ganhar com essa abertura comercial, quer outras nações façam ou não a mesma coisa.
Secos & Molhados
Eles podem
- A ressalva é do economista francês Maurice Dobb. Os americanos só baixam a guarda em produtos ou mercados nos quais já firmaram liderança competitiva. Mas onde os importados ainda batem mais fundo aí o protecionismo legiscrativo segura as pontas. Com barreiras discriminatórias e cirúrgicas.
Pedágios
- O Brasil que o diga. Estudo da CNI constata que 61% de nossas vendas pagam pedágios extras no desembarque em portos americanos. Sem essas sobretaxas, poderíamos estar exportando o dobro ou o triplo de tais produtos para o mercado mais aberto do mundo.
Vem chumbo
- Eis que Washington acelera em abril a nova Lei Agrícola. A atual, de 1996, expira em dezembro. A nova lei, que se espera ainda mais severa (nas barreiras não tarifárias, erigidas por novas cláusulas ambientais e sanitárias), antecipa-se à gestação da Alca e à frustrada Rodada do Milênio da OMC.





