Joelmir Beting
A energia mais cara do mundo é a energia que não existe. Ainda mais cara é a que, em existindo, deixa de existir.
John Davison Rockefeller (1839-1937), fundador da Exxon
Contra o apagão
Secretários estaduais da Energia reúnem-se hoje em Brasília para o conhecimento prévio do programa nacional de racionalização da oferta e do consumo de eletricidade. Programa costurado em conjunto pelo Ministério das Minas e Energia, Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e Operador Nacional do Sistema Elétrico.
O ministro José Jorge adianta que se trata de um programa de dois tempos. O primeiro deles será divulgado amanhã: o da racionalização (que se pretende permanente). Se esse programa não afastar o risco de uma demanda (em alta) maior que a oferta (em baixa), então o governo acionará o segundo tempo, vulgo Plano B: o racionamento (que se pretende emergencial).
Racionalizar oferta e demanda da força e da luz é modernizar o sistema pelo lado da oferta e espancar o desperdício pelo lado da demanda. Estamos jogando fora toda a energia de uma Itaipu. Ou perto de 15% de toda a eletricidade gerada no País.
O problema é que a racionalização, se praticada ao pé da letra e ao pé da verba, só dará frutos a médio prazo. E já estamos na 25.ª hora do descompasso entre produção e consumo. O sistema começa a consumir, agora em abril, as águas de agosto. Os reservatórios do Centro-Sul, exauridos por um verão quente e seco, continuam abaixo de 40% da média histórica da estação.
O que não falta é elástico grande e frouxo para programas de racionalização. A poupança ou a conservação de energia terá de começar pela modernização das hidrelétricas com mais de 25 anos de existência. Estudo da Aneel revela que bastaria esse procedimento nas engenharias de gestão, produção e transmissão para aumentar a oferta em 7.000 megawatts. Ração suplementar da ordem de 11% da atual capacidade instalada. Ou equivalente à redução do consumo pretendida pelo programa de racionalização.
Com ou sem modernização das hidrelétricas, o programa vai investir, a partir de segunda-feira, em campanhas de rádio e TV para a catequese de autocontenção do consumo empresarial (consumo médio por unidade de produto) e residencial. Se essa autocontenção negar fogo, no mais tardar em julho o programa acionará o órgão mais sensível do bicho-homem energívoro: o bolso.
Sim, um choque tarifário nas empresas e nas famílias. Com modelagem no tripé: a) quem não baixar a própria média de consumo do primeiro trimestre pagará mais caro; b) quem ficar acima dessa média, terá uma conta ainda mais salgada; c) quem baixar a média, ganhará redução tarifária. Redução do C bancada pela extração maior do A e do B.
Secos & Molhados
Para todos?
- O professor Rogério Furquim Werneck, da PUC-RJ, diz que a contagem regressiva para o blecaute recomenda toda a ênfase no inibidor tarifário. Com o lembrete: os custos econômicos, sociais e políticos dessa poupança de energia serão tanto menores quanto mais amplo o universo dos consumidores envolvidos por ela.
Sem adesão
- Apelos televisivos de poupança de energia não conseguirão comover os consumidores, aposta ele. A gente deixa a privação ou a renúncia para o vizinho ou para o concorrente. Nosso juízo repousa unicamente no bolso. Tanto nas contas da luz como nas contas da água.
Exclusão
- Pelo sim, pelo não, o ministro José Jorge antecipa que haverá exclusão dos excluídos em uma eventual sobrecarga tarifária de caráter corretivo. Primeiro, porque o consumo per capita de energia da baixa renda é mínimo. Segundo, porque esse tratamento tarifário diferenciado ou favorecido daria um alívio contábil na captura dos índices de inflação.





