Joelmir Beting
Otimismo é esperar pelo melhor. Confiança é saber lidar com o pior.
Roberto Simonsen (1889-1948)
Da máxi de 20%
Dólar a R$ 2,17 equivale no ano a uma maxidesvalorização nominal de exatos 20% sobre a taxa média do último trimestre do ano passado (R$ 1,81). Um tranco forte para a acomodação dos preços relativos no mercado interno. Os custos de produção, em setores específicos, estão inflacionados, diretamente, pelas importações sem alternativa de matérias-primas, bens intermediários, componentes, insumos, equipamentos, serviços e produtos finais.
Indiretamente, o choque cambial aumenta os custos financeiros das dívidas públicas e privadas contratadas em dólar e/ou com correção cambial. Com sobras para a elevação preventiva dos juros também em moeda nacional. Sem contar o congelamento de parcelas do cash-flow na formação e/ou ampliação do hedge cambial.
Em resumo: câmbio acima da taxa de equilíbrio (situada em algum ponto da banda de mercado que vai de R$ 1,95 a R$ 2,05) tem efeito inflacionário e recessivo. Ou estagflacionário. Além, claro, de reverter as expectativas da economia e da sociedade em relação a uma retomada do crescimento duradouro com estabilidade monetária.
E pensar que a culpa dessa reversão da reversão é de mais uma crise importada e não de algum transe interno. Foi assim que se deu o aborto da retomada em 1997 (crise da Ásia), em 1998 (crise da Rússia) e em 1999 (crise do câmbio). Agora, por obra e desgraça do impasse argentino e do solavanco americano.
O problema está menos na intensidade das crises alheias e mais no regime de propagação delas. Antes, crises piores levavam dias ou semanas para contagiar meio mundo. Agora, o repasse global delas se dá em meio segundo. Ou como foi reprisado aqui, desde então: o mundo não piorou; a velocidade da informação é que melhorou.
Com o reparo: melhorou a velocidade da informação, melhorou a quantidade da informação, melhorou a diversidade da informação - mas não melhorou, necessariamente, a qualidade da informação. Ou antes: a qualidade do trato que se dá à informação.
Por uma simples e boa razão: a informação acabou apropriada e processada pelo único mercado que se obriga a operar em tempo real e em escala global: bolsas, moedas e fundos. Um mercado ciclotímico ou paranóico por vocação, necessidade e especulação.
Ora, os paranóicos de profissão não podem ser os melhores analistas nem os melhores estrategistas. Mas são eles, os garotos de 29 anos, segundo Krugman, que passaram a dar as cartas, os rumos, os ritmos e os prumos da economia real. O tal de rabo que abana o cachorro.
Secos & Molhados
Com repasse?
- O que se discute hoje nos lares e nos bares é o repasse ou não dos trancos cambiais na produção para os preços finais no consumo (o chamado passthrough). Esse repasse negou fogo no overshooting cambial de 1999 e nos tarifaços trapalhões de 1999 e 2000.
Sem repasse
- Se não houve repasse da máxi nominal de até 75% em fevereiro de 1999, por que haveria repasse com casca e tudo da máxi nominal de 20% agora em abril de 2001? As empresas não repassam custos porque não podem e não porque não querem ou não sabem.
Quem segura?
- Nas novas regras do jogo econômico, não é mais o custo que faz o preço (para o alto). Agora, definitivamente, é o preço que faz o custo (para baixo). O preço que o mercado congela e até rebaixa, ainda que sob pressão de demanda.
Sem mágica
- A trava do IPCA sob a máxi de 20% repousa no tripé: 1) modernização rebaixando custos; 2) competição rebaixando preços; 3) corporação rebaixando margens. Quem ganhava 30% na margem ainda ganha 10% a caminho de 3%. O Copom sabe disso?





