Joelmir Beting
O futuro não é o que a gente teme. O futuro é o que a gente ousa.
Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político
De bloco em bloco
A armação de blocos econômicos é o passaporte para a futura economia global pactuada. A transição desse processo, tido já como irreversível, está nos acordos de bloco com bloco por cima ou ao largo dos acertos bilaterais de país com país.
Economia global pactuada? Sim. No futuro, o mercado sem fronteira e sem bandeira não será uma terra de ninguém. Ele estará regido por regras e normas penosamente negociadas e devidamente gerenciadas por instituições multilaterais. Sejam elas de caráter jurídico, monetário, tecnológico, comercial, trabalhista, ambiental.
A maturação do Mercosul, orquestrado em março de 1991, segue a mesma trilha institucional da União Européia, usinada desde 1956. Ou do Nafta, inaugurado em 1995. E com a Alca já queimando etapas aí pela proa de 2005. Ou de 2003. Não houve acordo prévio do Mercosul com o Nafta nem do Nafta com o Pacto Andino nem sequer do Pacto Andino com o Mercosul. A Alca vem de roldão.
O processo é telúrico e nada mais se pode fazer, isoladamente, para detê-lo. O negócio, no caso brasileiro, é abandonar a antiga diplomacia da contemporização e cuidar de fazer do limão da Alca apressadinha uma limonada adoçada com bom mascavo.
O que não falta, entre nós, é madura reflexão da comunidade acadêmica sobre o que o Brasil pode esperar do Mercosul, da União Européia e da Alca. Caso de recentes estudos do Ipea e da FGV. Eles recomendam a negociação simultânea, em paralelo, do tratado continental da Alca e do acordo comercial com a União Européia.
O desafio maior dessa negociação em duas frentes está na desmontagem de barreiras tarifárias e não-tarifárias. As quais, ainda hoje, para produtos específicos, dificultam as exportações brasileiras para os Estados Unidos e a União Européia. Paradoxalmente, o segundo desafio está na redução da proteção média das economias do Mercosul (de 14%) para os níveis de baixa proteção média reinante no mercado americano (4,3%) e no mercado europeu (6,1%).
Na União Européia, essa proteção média é sacada da ponderação de barreiras de 4,9% para produtos industriais e de 20,8% para produtos agrícolas. O problema é que ainda está para nascer o diplomata sul-americano capaz de levar a Europa a rebaixar o paredão verde para menos de 10%. Ele teria de passar a navalha no bigode do espalhafatoso neoprotecionista José Bové, produtor de queijo de luxo subsidiado e encalhado.
Secos & molhados
Quem ganha?
- O Mercosul ganharia na redução das barreiras européias. Mas perderia na invasão de produtos europeus - se a proteção média, cá por estas plagas, por força da mesma canetada, baixar de 14% para 6,1%. Pois Domingo Cavallo acaba de propor barreira de 35% para bens de consumo europeus, americanos, japoneses, coreanos, chineses...
Quem cede?
- Na semana passada, em Bruxelas, União Européia e Mercosul deram a largada na discussão ponto a ponto da futura área de livre comércio. Tentativa de fazer a decolagem em 2005, data de ignição da Alca. Para variar, os europeus querem discutir e assinar tudo - de propriedade intelectual a trabalho infantil. Menos a agenda agrícola.
Barrigando
- A desconversa dos europeus no abrasivo assunto é mui versátil. Eles avisaram que a questão agrícola só deve ser encarada ao fim e ao cabo da Rodada do Milênio da OMC. Que nem sequer veio à luz em Seattle, dezembro de 1999, abortada a pedradas por José Bové & Cia.





