‘‘A melhor política industrial é não ter política industrial.’’
Roberto Campos, economista
Máquinas no desvio
Para refrescar a aflição da Argentina, o Brasil topa reduzir a zero as tarifas de importação para máquinas e equipamentos de países não integrantes do Mercosul. Ressalva: ainda não há consenso no governo brasileiro nem na parceria do Mercosul. A matéria terá de estar clareada em abril, quando da reunião extraordinária do Grupo Mercado Comum (GMC) para o encaixe do pacote argentino.
Empresários brasileiros desconversam sobre o assunto. Eles ganhariam tanto
na importação de máquinas americanas, européias e japonesas com tarifa zero (a média do Mercosul está em 11%) como na elevação da tarifa comum do bloco de 14% para 35% nas importações de bens de consumo aqui já por eles fabricados.
Quem fica no mato sem cachorro e sem codorna é a indústria brasileira
de bens de capital. Ela ainda junta os cacos da chacina setorial produzida pela ‘‘collorstroika’’ de 1990/92. Uma abertura comercial sem aviso prévio, sem preparação adequada e sem cobrança de reciprocidade da poderosa parceria global.
Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos
(Abimaq), Luiz Carlos Delben Leite lembra que o setor teve de reestruturar-se a ferro e fogo. Dezenas de fabricantes fecharam as portas e nada menos de 175 mil lugares de trabalho desapareceram para sempre. De 1990 a 1997, as compras externas saltaram de 6% do mercado interno para 55%.
A tal de lista ‘‘ex-tarifária’’ (de máquinas e equipamentos sem similar
nacional) deixou-se estufar por mais de 3.600 itens de fácil dissimulação e de difícil fiscalização. Sem contar as vantagens cambiais, creditícias e fiscais desfrutadas pelos concorrentes de fora.
Delben Leite diz que o setor sofre de um ‘‘isolamento político permanente’’.
Seguinte: todas as fábricas de todos os ramos vestem a camisa da abertura comercial para os bens de capital. Claro, em nome da modernização e da competitividade do parque industrial brasileiro - como se a indústria de máquinas, fábrica de fábricas, não fizesse parte dele.
A Abimaq defende a adoção de políticas setoriais para certas cadeias produtivas.
Com ênfase no comércio exterior. Se, como prega o ex-ministro Roberto Campos, ‘‘a melhor política industrial é não ter política industrial’’, o negócio é copiar o jeitinho americano: uma sólida e petulante política comercial, setor por setor, dispensa qualquer política industrial. Não temos nem uma nem outra.
Secos & Molhados
Por partes
- O ministro Pedro Malan prefere uma redução tarifária fatiada e seletiva para bens de capital. O ministro Domingo Cavallo dá prioridade à urgência e não à perfeição na reestruturação do parque industrial argentino.
Retrocesso
- A ruptura da Tarifa Externa Comum (TEC) levará o Mercosul a retroagir de ‘‘união aduaneira’’ (pactuada) para ‘‘zona de livre comércio’’ (cada um para si e Cavallo para todos). Em ‘‘zona livre’’, a Argentina ficaria liberada para acordos bilaterais com os Estados Unidos...
Até quando?
- Delben Leite resume: ‘‘Já estamos a bordo da economia da globalização, mas ainda praticamos a diplomacia da contemporização.’’
Parâmetro
- Estudo da Abimaq revela que a produção brasileira de bens de capital equivale a US$ 120 per capita. Muito ou pouco? Na Alemanha, US$ 1.200 (nove vezes mais). Nos Estados Unidos, nada menos de US$ 2.040 (16 vezes mais).
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