Para o Brasil, o Mercosul é um destino e não uma opção. A Alca, bem ao contrário, é uma opção e não um destino.’’
Celso Lafer, ministro de Relações Exteriores
Alca na mira
No primeiro encontro de trabalho com o novo presidente dos Estados Unidos, nesta sexta-feira, em Washington, o presidente Fernando Henrique Cardoso espera passar a limpo alguns pontos de divergência cavados entre os dois países pela gestação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Cujo parto natural está previsto para 2005, mas com proposta de cesariana já para 2003.
Os Estados Unidos têm pressa na armação do megabloco dos US$ 12 trilhões, suspira George Bush, reprisando Bill Clinton. Mas, a exemplo de Clinton, Bush não deve abrir o jogo. Ou como dizia o ator inglês Ralph Richardson: ‘‘As falas mais importantes da diplomacia são as pausas.’’
Nada pois de confessar o interesse maior da águia na carpintaria do futuro mercado comum, que vai do Alasca à Terra do Fogo: 1) antecipar a Alca é atropelar a maturação e a ampliação do Mercosul, interlocutor ainda desfibrado; 2) antecipar a Alca é atrapalhar o namoro do Mercosul com a União Européia, de olho rútilo no quintal sul-americano do Nafta; 3) antecipar a Alca é disputar mercado antes de uma eventual musculação das empresas (e das reformas) no Brasil, na Argentina, no Chile...
Nem só de cronograma ainda incerto vive a rota de colisão Brasil-EUA na negociação multilateral da Alca. O formato e o conteúdo do megabloco estão igualmente de costas para o consenso. A insistência do Brasil em hostilizar o neoprotecionismo comercial dos Estados Unidos tromba no meio da pista com a intransigência americana na defesa da pauta prioritária de Washington: 1) reforçar salvaguardas para a propriedade intelectual (patentes); 2) rejeitar concessões na legislação americana antidumping; 3) esvaziar a agenda agrícola usinada por brasileiros e argentinos.
Plantado em Washington, onde a anta bebe água, o embaixador brasileiro Rubens Barbosa diz que esse ‘‘encontro de trabalho’’, solicitado pelo presidente Bush, vale por um apronto bilateral para a Cúpula do Quebec, daqui a três semanas.
O embaixador nem sequer vacilou em escrever no Estado de quarta-feira: ‘‘Cresce a percepção em Washington de que o Brasil, para o interesse nacional dos Estados Unidos, deveria passar a receber um tratamento diferenciado. Que se materializaria por meio de um relacionamento mais pessoal e direto, no estilo de trabalho já assumido pelo novo presidente americano.’’
Resta saber o que os argentinos teriam a dizer a respeito disso.
Secos & Molhados
Quanto pesa
- Para o Brasil, os 33 futuros parceiros da Alca totalizam exatamente 50% do nosso mercado global. Os Estados Unidos, isoladamente, 22%. Secundados pela Argentina, com 14%.
Quanto bate
- Nada menos de 62% das exportações brasileiras pagam algum tipo de pedágio no desembarque em portos americanos. As tais de barreiras tarifárias, não-tarifárias, sanitárias... Desde 1990, o Brasil aumentou as vendas em 38% e as compras em 136%.
Um plano B
- O chanceler brasileiro Celso Lafer sustenta que o Brasil deve correr com três cavalos no mesmo páreo: 1) participar aguerridamente de todos os trabalhos de construção da Alca; 2) discutir com o Congresso e com a sociedade políticas alternativas à própria Alca; 3) adensar o Mercosul e namorar a União Européia.
Tudo ou nada
- O Inter-American Dialogue, de Washington, pespega em relatório: ‘‘Com o Brasil, a Alca é irreversível. Sem o Brasil, é inviável.’’
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