Joelmir Beting
O pacote argentino retarda a maturação do Mercosul e enfraquece nosso arsenal na negociação da Alca.
Luiz Francisco Bordon, consultor
Ainda no impasse
O câmbio fixo dos argentinos não deve ser colocado no banco dos réus pela estagnação econômica e pelo desemprego africano. A economia argentina cresceu, de 1991 a 2000, pela média anual de 4,3%, com picos de 8,1% em 1994 e 1997. Com direito, no período, ao banimento da inflação. Que despencou de 2.342%, em 1990, para 25%, em 1992. Ou para menos de um dígito, a partir de 1994, culminando com a deflação, desde 1999.
Deflação, eis a questão. Inflação é quando os preços sobem. Inflação zero é quando os preços não sobem nem descem. Deflação é quando os preços de hoje ficam abaixo dos preços de ontem. Ou, se preferem, acima dos preços de amanhã. Ela costuma cavalgar mercados em recessão. É um problema e não uma solução.
AA atual angústia do vizinho orgulhoso resulta desse estado deflacionário, com queda livre nos índices de consumo, produção e emprego. Já por 801 noites. Ou, por coincidência, desde a desvalorização do real, com estagnação brasileira em 1998/1999.
Apeado do governo Menem em 1996, Domingo Cavallo não perdeu tempo na transição da vidraça para bodoque. Saiu candidato à presidência nas eleições de 1999 e foi premiado com medalha de bronze pesando mais que chumbo: 12%, distanciado da prata Duhalde e do ouro De la Rúa.
Em seu programa de governo (Este és mi Plan), relembrado entre nós por Delfim Netto (Valor Econômico, terça, 27), Domingo Cavallo simplesmente prometeu ao eleitorado incrédulo um PIB de 10% já em 2000, com taxa média de 6,5%, de 2001 a 2004.
Cavallo perdeu a eleição em 1999 e ganha o governo agora em 2001. O presidente De la Rúa já virou rainha da Inglaterra: reina, mas não manda. Delfim Netto diz que o superministro pero no mucho está lavando as mãos, feito Pilatos. A culpa da recessão ou do impasse não é da Lei de Conversibilidade, de sua autoria (o país cresceu 4,3% ao ano na década). A culpa, segundo ele, é da queda global dos preços agrícolas, ainda hoje o principal reator da economia argentina.
Igualmente culpados pela frustração nacional são os erros da política econômica pós 96 e a perda de credibilidade interna e externa dos governos Menem e De la Rúa.
Delfim Netto endossa o diagnóstico do próprio Cavallo, mas duvida da terapêutica rarefeita da Lei de Competitividade. A reversão das expectativas pessimistas não dura um trimestre, se a economia real (e não o mercado virtual dos grafismos de bancos, fundos e bolsas) não tirar pelo menos um pé do charco da estagnação.
Secos & molhados
Peso leve
- Delfim Netto localiza uma desvalorização disfarçada do peso sob os panos da conversibilidade imexível. No prato das importações, com o sinal verde-amarelo do Brasil, a volta da proteção tarifária de 35% para bens de consumo, com isenção para bens de capital. No prato das exportações, um reintegro automático de 20%.
Mão amiga
- O Brasil também dá a mão no campo fiscal. Domingo Cavallo vai mesmo clonar nossa CPMF. Com duas manipulações genéticas: 1) o novo tributo poderá ser descontado de outros impostos; 2) só valerá para transações financeiras acima de 1.000 pesos/dólares, feitas obrigatoriamente em cheque ou cartão.
Lembrete
- A tarifa zero nas importações de bens de capital maltrata duramente a indústria brasileira do ramo. Delfim Netto cobra: Que nossos solícitos ministros tratem nossa Abimaq com a mesma elegância e eficiência com que tratam o superministro Cavallo.





