Joelmir Beting
Nas manchetes: Brasil aceita fazer sacrifício para ajudar a Argentina. Por acaso alguma vez a Argentina fez sacrifício para ajudar o Brasil?
Antônio Rochael, leitor de Iguape, SP
Moeda Cavallo
Sem os superpoderes que lhe foram negados pelo Congresso, o ministro Domingo Cavallo não tem como fazer decolar sua Lei de Competitividade, a do crescimento vigoroso. De resto, derradeira tentativa para retirar a economia argentina do estado catatônico em que mergulhou a bordo da Lei de Conversibilidade, de 1991.
O cardápio dos superpoderes já seria um miado de leão, se aprovado com casca e tudo pela Câmara e pelo Senado. Desfalcado de seis poderes da listagem original de 12, o governo vai ter de se contentar com o discurso (sem o recurso) da retomada. Com um e outro afago do tal de mercado, o financeiro.
Uma reativação encadeada do consumo, da produção e do emprego, assim por decreto-lei, não se contenta com medidas cosméticas do tipo corte parcial de isenções fiscais (corte de caráter recessivo) ou de fusão contábil e anódina de repartições federais. Ou flexibilização dos estatutos do funcionalismo (sem demissão de um único servidor até março de 2002).
O choque de crescimento de Domingo Cavallo não poderá contar com a privatização de estatais remanescentes nem com a reformulação do sistema previdenciário no vermelho. Fica igualmente proibido reduzir subsídios aos governos estaduais e promover qualquer mudança na legislação trabalhista.
Em resumo: o Congresso permite ao superministro Cavallo fazer a omelete com bacon, mas sem quebrar os ovos nem matar os porcos. Ou como suspiraria o ex-presidente Carlos Menem, principal investidor político no fracasso de Cavallo/De la Rúa: Del dicho al hecho hay siempre um gran trecho.
Uma Lei de Competitividade digna do crachá teria de desabotoar a camisa-de-força do câmbio criogênico e afrouxar o garrote do crédito anoréxico. De sobremesa, cortar gastos públicos a ferro e fogo e rebaixar a carga tributária na produção e no consumo. Claro, com todos os riscos de uma rebrota da inflação de demanda, já então com peso fragilizado pela flutuação cambial.
Clamorosa entalada! Se correr a inflação pega, se ficar a recessão come. Impasse já embutido no câmbio fixo: a) se abandonar a conversibilidade, a moeda nacional vai para a rejeição sumária e hiperinflacionária; b) se dolarizar formalmente o sistema, a Casa Rosada de vergonha será substituída pela Casa Branca de susto. Hipóteses impensáveis. Os argentinos detestam os efeitos, mas adoram as causas do atual sufoco nacional - a Lei de Conversibilidade, peso valendo bem mais do que pesa.
Secos & Molhados
Escapismo 1
- Domingo Cavallo jura que não mexe no câmbio de baixa competitividade. Então, na impossibilidade de exportar mais e de importar menos, ele pede ajuda tópica e tática ao Brasil, senhor do Mercosul: elevar de 14% para 35% a tarifa mínima do bloco para a importação de bens de consumo oriunda de outras plagas.
Escapismo 2
- Na mesma penada, o Mercosul baixaria para zero a tarifa de importação de máquinas e equipamentos made in USA, Europa, Japão, Coréia... A indústria brasileira de bens de capital que trate de segurar no colo esse mico do tamanho de um gorila.
Escapismo 3
- Domingo Cavallo reafirma a intenção de trocar a lastreabilidade da conversibilidade, em nome da competitividade: no lugar do dólar, isoladamente, o peso passaria a ser calibrado por uma tríade balanceada de dólar, euro e iene. E seria adotado como moeda escritural para todo o Mercosul. Só.





