Joelmir Beting
Nas próximas semanas, os credores internacionais estarão em nossas portas, oferecendo mais dinheiro à Argentina.
Domingo Cavallo, ministro argentino da Economia
Governo Cavallo
Armado de poderes de fato, no interior do governo, com ou sem carta-branca do Congresso, o ministro Domingo Cavallo aposta todas as fichas na chamada Lei de Competitividade. Baciada de medidas de promoção do crescimento econômico com estabilidade monetária.
Tradução: sem mexer na estressada Lei de Conversibilidade, de sua própria autoria, lançada em 1991, Domingo Cavallo promete retirar a Argentina das areias movediças do câmbio fixo. Um regime cambial anoréxico. Peso valendo US$ 1 há 117 meses corridos retira competitividade das empresas argentinas dentro e fora de casa.
Na expectativa ainda não consumada de mudança cambial pela proa, as empresas argentinas deram de engavetar projetos e de protelar investimentos. A inflação virou deflação, mas o desemprego trafega acima de 14%, o dobro da desocupação no Brasil.
Com crachá de salvador da pátria cravado na lapela, Domingo Cavallo tem pouca munição para a batalha do reaquecimento da economia. A privatização terminal de meia dúzia de estatais de pouca massa (o Banco de la Nación acaba de ser declarado intocável), a reforma administrativa do governo central, a reestruturação das leis trabalhistas e a nova recauchutagem no sistema previdenciário - essas medidas em conjunto teriam algum efeito expansionista só a médio prazo. Elas não compõem um programa de caráter emergencial.
A única proposta de certo impacto, a curto prazo, nada teria a ver com o crescimento vigoroso trombeteado domingo. Ou seja: o aumento da carga tributária pela adoção do imposto sobre transações financeiras. Sim, arremedo da CPMF verde-amarela, que o superministro argentino classifica como brilhante solução brasileira para um aparelho tributário eficiente e moderno.
Só faltava essa! A Argentina entalada fazendo a propaganda ideológica da CPMF, aqui por todos nós tão execrada. Que o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, chamou outro dia, em Nova York, para um auditório de banqueiros da América Latina, simplesmente de imposto infame.
O detalhe relevante do conjunto de metas e de meios da Lei de Competitividade está no compromisso renovado de manutenção a ferro e fogo da Lei de Conversibilidade. Qual é a dúvida? Desde quando uma autoridade econômica se permite o luxo de sinalizar qualquer mudança no câmbio? Muito menos no único câmbio congelado do mundo, certo?
Secos & Molhados
Tem lastro?
- Para refazer o ânimo de todo o setor produtivo (e não apenas o afago do mercado financeiro), Domingo Cavallo terá de contar com um baita mutirão político interno - da carta-branca do Congresso ao sinal verde da população. Terá, mesmo?
Viés político
- O problema da credibilidade interna (e externa) começa pelo calendário eleitoral dos argentinos: renovação do Congresso em outubro e eleições presidenciais em 2003 - com o superministro Cavallo antecipando-se como presidenciável número um.
Falta pouco
- Há quem prefira apostar na ruptura do regime cambial ainda este ano. A tal de Lei de Competitividade negaria fogo por falta de fósforo. Então, ao superministro restaria uma única saída: desamarrar a camisa-de-força cambial.
Justificativa
- Autor da Lei de Conversibilidade, Domingo Cavallo já tem a exposição de motivos na manga do colete: Afinal, quem fez parte do problema tem de fazer parte da solução.





