Joelmir Beting
É uma lei da natureza: os homens se congregam onde as águas convergem.
Jacques Cousteau (1914-1997), naturalista francês
Apagão seletivo
Afinal, vai ou não vai faltar energia elétrica ali pela altura de agosto, mês do cachorro louco? Metade dos peritos do ramo sustenta que a contagem regressiva para o racionamento na Região Sudeste, endereço de quase dois terços do consumo nacional, já foi ligada. A outra metade entende que tudo vai depender das chuvas de abril...
Única certeza: pela primeira vez desde os anos 60 estamos nas mãos dos caprichos pluviométricos de São Pedro. Pelo nível atual dos reservatórios, fraudados por um verão quente e seco, teríamos de contar, doravante, com 40 dias e 40 noites de dilúvio bíblico (em plena colheita da safra de grãos) para tão-somente levantar a cota das represas de 34% para 50%. Ou para soerguer a margem de folga ou tolerância do sistema gerador de menos 3% para mais de 5%.
Essa operação em estado crítico (no limite do apagão monitorado ou seletivo) resulta da silenciosa queima de gordura do parque gerador - gordura instalada desde os anos 70, com Itaipu à frente. Nos anos 80, sem capital aqui dentro e sem crédito lá fora, o sistema interrompeu as obras em nove de cada dez usinas projetadas. E, nos anos 90, mesmo com retomada de projetos, o descompasso terminal: a geração cresceu 38,7% e o consumo avançou 48,8%.
A engenharia brasileira do setor, a melhor do mundo, avisa que o sistema interligado (de cobertura nacional) não tem cintura para cobrir a atual secura das Regiões Sudeste e Centro-Oeste. Há gargalos também no sistema de transmissão. Já poderíamos, por exemplo, estar puxando 1.000 megawatts contratados na Argentina. Mas só um terço dessa ração suplementar consegue ingressar pelos estreitos linhões da Região Sul.
Com a crise da energia faiscando nas manchetes, nos simpósios e nas conversas dos lares e dos bares, o governo tenta ao menos pasteurizar e padronizar os discursos contemporizadores do Ministério das Minas e Energia, da Agência Nacional de Energia Elétrica e do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Até palavra em contrário, fica assim combinado: racionamento, não; racionalização, sim.
Racionamento é cortar a força e a luz em dias, horas e locais selecionados - com o indispensável aviso prévio. Racionalização é tamponar desvios e vazios do sistema, atacando a ineficiência e espancando o desperdício. Da gestão dos mananciais à manutenção preventiva dos sistemas de geração, transmissão e distribuição. Da modernização de equipamentos industriais, comerciais e residenciais a um choque elétrico (ou tarifário) em toda a nossa cultura do desperdício, cevada desde Pero Vaz de Caminha pela nossa cultura da abundância. Em se ligando, tudo brilha, ora, pois.
Secos & Molhados
Rainhas e peões
- A atual retórica do racionamento dá carona a interesses telúricos. E não apenas de fornecedores e de empreiteiros, vidrados na sinistrose energética. Há lances outros no xadrez das privatizações de 2001 e das eleições de 2002.
Gás sem pressão
- E o tal de programa prioritário das 49 futuras termoelétricas a gás? Está saindo para o acostamento de um mero impasse cambial - na tarifação do produto importado. Cochilo burocrático em tempo de blecaute pela proa.
Para variar
- O setor privado faz beicinho? A Petrobrás, sempre ela, renova a intenção de construir usinas a gás a toque de caixa (plena). Há quem diga tratar-se, no caso, de uma reestatização da matriz energética brasileira.
Emergência?
- O professor José Goldenberg diz que medidas de racionalização não podem ser emergenciais. Elas devem ser severas e rotineiras. Amanhã, nesta coluna.
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