‘‘Podemos até crescer um pouco menos.O relevante é que já saímos do buraco.’’
Roberto Macedo, economista
A saída é outra
O engenheiro J.K.F., 42 anos, aplicou R$ 500 em CDBs do Banco Júpiter. Na mesma data, o enfermeiro C.B.G., 31 anos, enredou-se no cheque especial do Banco Esparta para rolar o fiado de um televisor de R$ 500, em 36 prestações. Ao fim e ao cabo de 32 meses corridos, o engenheiro era dono, no Banco Júpiter, do equivalente a 1,7 televisor.
E o enfermeiro devia, ao Banco Esparta, exatamente 100 televisores. Ora, será realmente preciso brincar de austeridade monetária na base sem mexer uma palha na barbaridade bancária da ponta? O que está contendo a explosão de consumo no Brasil? Uma elevação de meio ponto porcentual na tal de Selic ou um crediário de banco ou de loja ainda escandalosamente extorsivo? Sem contar a gula de Drácula do crédito rotativo dos cartões de crédito...
Pois o Copom do Bacen estica a Selic e os analistas em revoada elogiam a demonstração de ‘‘corajosa austeridade’’ do Banco Central no ‘‘front’’ da guerra santa contra a inflação de demanda. Tida nos livros-texto como uma ratazana com fôlego de sete gatos.
Negativo. Quem está segurando a inflação de demanda na economia brasileira é a combinação de choques encavalados de competição com choques continuados de modernização. Esta rebaixa os custos. Aquela congela os preços. A desindexação residual do Plano Real também ajuda nessa empreitada.
Na travessia de 1999, ano do ajuste cambial, os preços livres subiram 31% nas fábricas e nada além de 8% nas lojas. Não houve repasse de custos comprovados para preços finais de mercado. Nem em mercados ainda aquecidos, sob pressão de demanda.
A inflação não rompeu a jaula nem mesmo com a redução progressiva da Selic. Em oito cortes consecutivos, ela baixou de 45%, em março de 1999, para 15,25%, em janeiro de 2001. Impassível, o IPCA permaneceu em declínio em 2000, ignorando uma expansão de 27% na oferta de crédito bancário para produção, giro e consumo.
Nesta altura do calendário, os preços de mercado em liberdade estão com um ‘‘core inflation’’ de 2% ao ano. Os preços públicos e privados administrados (e reindexados) pelo governo, no ventre do mesmo IPCA, é que andam trafegando acima de 12% ao ano.
Logo, se o governo está realmente com medo da inflação, com medo do câmbio, com medo das crises alheias, com medo do próprio medo, a saída não está na medrosa elevação da Selic (que encarece a dívida pública, que aumenta o risco Brasil, que pressiona o câmbio, que também aumenta a dívida pública). A saída corajosa está em rebaixar os juros da base e, principalmente, da ponta. Deixando a economia respirar e prosperar. Sem reinflacionar.
Secos & Molhados
Como é que é?
- Executivos financeiros aproveitam o embalo para renovar a chantagem emocional: a) a queda da Selic não baixa os juros do crediário; b) a alta da Selic eleva os juros do crediário. Ou seja: para o alto, todos os demônios ajudam.
Vai ou não vai?
- A maioria dos empresários endossa essa análise esotérica do mercado financeiro. Eles juram que os juros para o alto desencorajam projetos e desaceleram negócios. Os mesmos que juravam que os juros para baixo não aqueciam negócios nem estimulavam projetos.
Uma fantasia

Para retomar o crescimento econômico com estabilidade monetária não é preciso sacralizar a Selic. Ela não tem, no depois da vírgula, qualquer poder de contenção ou de indução da atividade econômica. Se é que teria da própria atividade bancária.
Camuflagem

Colocar a Selic no palco é tirar o foco de duas novas ações inflacionárias (ou inflacionistas) do governo: a recarga tributária da CPMF e a recarga parafiscal do FGTS.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup