‘‘Com ou sem globalização, só existe um poder global: o poder apolítico, amoral e não controlável do capital.’’
Helmut Schmidt, ex-chanceler alemão
Sininho no gato
Na recaída da crise global, resfriado de alguns produzindo gripe em quase todos, retira-se da geladeira o debate sobre a ‘‘regulação do capital volátil’’ em todo o mundo. Essa massa erradia e nômade de especuladores sem bandeira e sem fronteira, que Charles de Gaulle chamava de ‘‘chacais da moeda’’, estaria botando de joelhos governos de países pobres, emergentes e opulentos - indiferentemente.
A porta de entrada da fuzarca global em cada mercado nacional tem sido a desregulamentação financeira açodada e rarefeita, dizem os censores mais alarmados do processo. Com o que não concordam os defensores da abertura. A culpa, dizem estes, não é dos capitais voláteis, mas de países gasosos, com governos deficitários, não raro corrompidos, perpetuando economias anêmicas, com fundamentos fora de esquadro.
Pelo sim, pelo não, a União Européia acaba de empossar um ‘‘comitê de sábios’’ para a realização de um trabalho de 12 Hércules:
1) acelerar as propostas de montagem de um mercado de capitais único para toda a Eurolândia, incluída a Inglaterra, ainda fora da cunhagem do euro; 2) projetar para esse mercado único a blindagem contra o capital volátil sem limite e sem remorso; 3) liderar um pacto global para uma regulamentação sem vazios nem desvios.
Presidido pelo barão Alexandre Lamfalussy, banqueiro belga, o ‘‘comitê de sábios’’, integrado por financistas, consultores e acadêmicos, já declinou sua exposição de motivos: a) um mercado financeiro em liberdade pode ser mais saudável que um mercado mal regulamentado; b) um mercado com regras bem elaboradas e bem implementadas é superior ao segundo e deixa no chinelo o primeiro.
Resta saber o que seria uma boa regulamentação em escala global - se pergunta a revista The Economist, em nota editorial. O desafio encara duas frentes. A primeira: os mercados financeiros são operados tanto por instituições sérias como por organizações aventureiras e/ou clandestinas. Que o diga a poderosa ‘‘indústria da lavagem do dinheiro’’, incrustada no sistema bancário legal.
A segunda: um controle realmente global teria de engajar todos os 209 países da ONU ou pelo menos os 178 membros do FMI. De preferência, com o descarte pactuado de todos os paraísos fiscais, começando pela heráldica Helvécia. E mais: o controle teria de ser padronizado, sem opressão nem omissão, por cima e ao largo da concorrência entre nações. Concorrência que supõe o relaxamento competitivo de normas. O que inviabilizaria o controle global.
Secos & Molhados
Em marcha
- A supervisão bancária já conta com certas normas globais. Caso do chamado Acordo de Basiléia. O próprio FMI e o BIS (espécie de banco central dos bancos centrais) já conseguiram padronizar certos procedimentos monetários e cambiais.
Um salto
- Além dos bancos, também as bolsas caminham para a convergência regulatória. Vem aí a bolsa global online, com custódia igualmente global. Pois é justamente pelas bolsas que trafega o lado visível do capital volátil, sem quarentena. Pois, num certo país da América do Sul, os ‘‘chacais da moeda’’ já pagam uma tal de CPMF.
E a águia?
- O principal assessor do presidente Bush para questões de bolsas e de bancos é Phil Gramm, ‘‘chairman’’ do Comitê Bancário do Senado. Ele ponderou na semana passada que, antes de negociar um controle global, os Estados Unidos devem cuidar de modernizar seu próprio sistema bancário e de ressegurar seu insuperável (e histérico) mercado de capitais. E nada mais disse.

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