‘‘Na enchente da crise, em vez de elevar o nível da ponte, o governo argentino prefere rebaixar o leito do rio.’’
Juliano Bastide, sociólogo
Último bandônion
Só faltava o regresso de Domingo Cavallo para cumprir a sina do príncipe de Lampedusa: certas coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas. A recente substituição de José Luis Machinea por Ricardo López Murphy, no comando da Economia, já havia sido timbrada pela troca do 12 pela dúzia. Com direito, para disfarçar, de um choque fiscal de pífios US$ 4 bilhões.
Choque fiscal? Afinal, o enrosco argentino não está no déficit fiscal - de resto, um enrosco de quase todos os países do mundo.
O verdadeiro sufoco está no impasse cambial. Que já dura 117 meses de conversibilidade pura, garantida por lastreabilidade dura. Um peso vale um dólar - chova ou faça sol, até o Dia de São Nunca.
Regime radical tutelado pelo Conselho da Moeda (‘‘currency board’’), versão platina do antigo padrão-ouro.
Na rejeição política do Pacote Murphy, retoma-se o Efeito Cavallo: última tentativa de dar credibilidade interna e externa à sustentação da conversibilidade a ferro e fogo. Lançada pelo próprio Cavallo, ministro do governo Menem, em junho de 1991.
O detalhe: ‘‘Pai da Conversibilidade’’, Cavallo não foi o autor do plano. Ele foi o principal avalista técnico e político do plano, que vinha sendo recusado por Carlos Menem desde 1989. Plano de autoria do economista Eduardo Cúria, secretário de Programação Econômica, de 1989 a 1999.
O que pensam, hoje, da Lei de Conversibilidade, o mentor Domingo Cavallo e o autor Eduardo Cúria ? O ex-ministro, de novo no palco, reconhece o impasse cambial, mas sustenta que a saída não está na desvalorização do peso nem da dolarização formal. Há dez dias, ele defendeu a manutenção da conversibilidade, mas com mudança da lastreabilidade: no lugar do dólar americano, uma cesta balanceada do tripé dólar/euro/iene.
O professor Eduardo Cúria simplesmente brande na praça um livro de sua autoria, criador atacando a criatura: A Armadilha da Conversibilidade. Ele lava as mãos, em entrevista a O Globo (18/3/2001): a) o engessamento cambial era a única saída de choque para a hiperinflação Argentina dos anos 80 (com picos de até 18.000% ao ano); b) necessariamente recessiva, a conversibilidade não poderia durar uma década e, sim, no máximo, 12 meses; c) a saída estaria na usinagem de uma banda estreita, flexível e transitória; d) transição suficiente para a desindexação em dólar e para a adoção, mais à frente, já então sem trauma, do câmbio flutuante.
Secos & Molhados
Pela rama
- Resumo da milonga: o impasse cambial é o problema e o ajuste fiscal não é a solução. Até porque se trata de um ajuste periférico, que não poupa o social. Portanto, um choque político que está gerando mais calor do que luz.
Pela proa
- Com Murphy ou com Cavallo, a retórica da austeridade orçamentária, patrulhada peso a peso pelo FMI, sinaliza para o agravamento do processo recessivo, com desemprego já explosivo. Cenário de alto risco.
Um desastre
- Ou como suspirou Eduardo Cúria, no Globo de domingo: ‘‘Cavallo não quis desvalorizar o peso na véspera da conversibilidade. Esse erro nos custou a competitividade. Somos hoje um desastre, com pobreza crescente e estagnação crônica.’’
Um destino
- O sociólogo argentino Atílio Boron assim resume o último bandônion: ‘‘O destino tragicômico desse pacote furado é trazer de volta ao governo, além do Cavallo, o próprio Menem...’’

mockup