Joelmir Beting
Num Brasil onde até mesmo submarino naufraga, por que plataforma de petróleo não afundaria?
José Maria de Jesus, escafandrista
Câmbio sem marcha
Afinal, qual seria o valor justo do dólar nesta altura do calendário da flutuação cambial? Há quem garanta, jurando por todos os juros, que a moeda americana estaria valendo, hoje, exatamente R$ 1,98. Acima disso, vira mico, Com direito a uma forte retração do mercado. Que teria operado, desde terça-feira, com o freio de mão puxado - abaixo de um terço do volume médio diário.
Sobre o último suspiro da banda cambial de janeiro de 1999, o dólar justo, a R$ 1,98, estaria com uma correção nominal ponta a ponta de 64% para uma correção real de 36% (deflacionada pelo IPA no Brasil versus IPP nos Estados Unidos). Nada de dramático, pois.
Dramática é a leitura catastrofista que se faz de uma cotação transitória acima da barreira psicológica de R$ 2,10. Que outro dia era barreira psicológica de R$ 2,00. Ou, antes, de R$ 1,90.
O que não tem faltado é análise técnica de um mercado volátil por vocação e gasoso por interesse. Mercado tipo bolsa, especulativo e paranóico, com direito a intervenções corretivas ou punitivas do Banco Central, poderoso ator de mercado livre em meio mundo.
Nesta quadra de neuras alheias, importadas da Argentina, da Turquia, do Japão e dos Estados Unidos, para o alto todos os demônios cambiais ajudam. Incluído o desastre da Petrobrás no campo de Roncador. Como se um desfalque acidental de 2% no faturamento bruto da estatal encharcada de lucro (em torno de R$ 10 bilhões em 2000) pudesse destroçar de vez o (re)equilíbrio ainda precário de nossa balança comercial.
Ligeirinho, o mercado cuidou de detectar nas explosões de Roncador uma sobrecarga, este ano, de meio bilhão de dólares no prato das importações do sujo óleo. Ora, se assim é, que tal desonerar as exportações brasileiras da nova CPMF de 0,38%? Se assim é, por que não remexer na equação meramente fiscal amoitada na caixa-preta cambial da tal de conta-petróleo?
Outro esporte frívolo deste fim de semana é o da chutometria dos efeitos do dólar, neste novo patamar acima de R$ 2,00, sobre a inflação brasileira lá na ponta ou na meta de dezembro. Há quem garanta que o índice gregoriano de 2001, projetado para um IPCA de 4%, não mais será alcançado. Chova ou faça sol.
Provavelmente, prognóstico assinado pelos mesmos cenaristas que apostaram em IPCA anual de 35% no ajuste cambial de 1999. Certo banco estrangeiro chutou, em fevereiro, dólar então cravando R$ 2,23, nada menos de 83% para a inflação anual. Era a sentença de morte do real, órfão da âncora cambial...
Secos & molhados
Chutometria
- A análise meramente grafista do processo econômico erradio e nômade sustenta que, a cada desvalorização nominal acumulada de 10% no câmbio, se tem inexoravelmente uma elevação de 1 ponto porcentual no IPCA do trimestre ou de 1,5 ponto porcentual no ano. Dá para conferir?
Sem repasse
- Até prova em contrário, empresas agora inflacionadas em dólar (nas importações de insumos ou nos exigíveis lá fora) não se arriscam a repassar o tranco cambial para o preço final. Nem mesmo em mercados ou produtos com demanda acesa.
Trava geral
- Nos últimos 26 meses de câmbio flutuante, a inflação brasileira acumula 41% no chão das fábricas (IPA) e nada além de 17% no balcão das lojas (IPC). Cadê o repasse?
Come-quieto
- Pois é justamente esse sumiço do repasse privado que tem levado o governo a fabricar inflação residual nos preços ou tarifas por ele mesmo administrados. Incluído o petróleo.
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