Cavalo de Tróia
Sim, o Brasil está com a abertura e não abre, diz o ministro Francisco Dornelles, sintetizando a posição brasileira na conferência interministerial de Cingapura, encerrada ontem. Só que temos o direito adquirido de não ir com muita sede ao pote da globalização.
Pondera o ministro: 1) não podemos permitir que a abertura de fora para dentro ultrapasse o cronograma da abertura de dentro para fora; 2) não interessa importar mais o produto que a tecnologia equivalente; 3) caso do acordo multilateral para a abertura dos mercados da Tecnologia da Informação.
O acordo da Tecnologia da Informação acabou roubando a cena dos demais assuntos, todos de relevância, agendados pelos 127 parceiros da Organização Mundial de Comércio (OMC), em Cingapura. O ministro Luiz Felipe Lampréia, das Relações Exteriores, capitulou esse desvio de foco como ‘‘o cavalo de Tróia high-tech da conferência’’. Até porque o acordo não avançou e está longe de obter algum consenso nas negociações programadas para o ano que vem.
Donos de mais da metade do comércio mundial do setor, os Estados Unidos tentaram arrancar dos parceiros de Cingapura uma abertura tão veloz com a própria evolução da Tecnologia da Informação: tarifas zero, já no ano 2000, para uma vasta lista de bens de informática, microeletrônica e telecomunicação. O ministro Luiz Felipe Lampréia lembrou que nem mesmo no Mercosul existe um ‘‘phase cut’’ tão veloz no setor: as tarifas ainda estarão oscilando entre 14% e 16% lá pelo ano 2006. E o Chile, que já tem tarifas mais baixas que essas, avisou em Cingapura que está fora de qualquer acordo global.
Parece que nessa matéria os americanos perderam a viagem. A idéia do ‘‘duty-free’’ planetário para uma área tão sensível e tão nervosa, com padrões tecnológicos ainda em vertiginosa transformação, vai mesmo ficar para a faixa de 2005 a 2010, arrisca o embaixador Celso Lafer, representante do Brasil na OMC. Mesmo porque dezenas de países, Brasil no meio, vão precisar de mais cinco anos para consolidar a flexibilização dos monopólios estatais, com privatização ou não das grandes operadoras nacionais.
Em resumo: está faltando comunicação no (des)acordo da Tecnologia da Informação. Que Mark Weiser, chefe do centro de pesquisas de computação da Xerox americana, prefere chamar de ‘‘tecnologia da virtualidade corporificada’’. Bingo!

SECOS & MOLHADOS
Na largada

- Ficou esboçado no encontro de Cingapura que a abertura dos mercados nacionais para a Tecnologia da Informação deve começar por cabo de fibra ótica, fotocopiadoras, displays gráficos e capacitores. A União Européia fechou em peso com o acordo.
Na chegada
- No segmento das telecomunicações, negócio que mais cresce no mundo, um primeiro acordo global deve estar pelo menos rascunhado até 15 de fevereiro próximo. O objetivo é fazer decolar o mercado livre também, no ano 2000, pensa Washington.
No desmanche
- Pelo sim, pelo não, o setor acelera os processos de privatizações, desregulamentações, incorporações e fusões. A União Européia radicalizou: não deve sobrar um único monopólio estatal no megabloco até 31 de dezembro do ano que vem. É mole?
Na intenção
- Aqui no Brasil, ainda no terreno da carta de intenção, o ministro Sérgio Motta avisa que todas as teles do sistema Telebrás estarão privatizadas até 1998. Incluída a Embratel. O ministro sonha com investimentos de US$ 100 bilhões até 2004.

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