Joelmir Beting
Do oba-oba ao epa-epa
Há exatamente um ano, a irracional exuberância das ações de empresas de tecnologia (pontocom, datacom e telecom, pela ordem) iniciou a anunciada travessia do ciclo do oba-oba para o ciclo do epa-epa.
A contabilidade das perdas, até sexta-feira, é de arrebentar o coração: tombo de 74% no Índice 100 da Nasdaq (as 100 empresas mais negociadas). Das quais, 27 com desvalorização superior a 90%.
Estimativa da Securities and Exchange Comission (SEC) igualmente é de tirar o sono do mais cético dos analistas: desmonte de US$ 5,3 trilhões no valor de mercado de todas as ações negociadas na Nasdaq e na Nyse. O tal de Efeito Riqueza, estacionado em Wall Street.
Quando quase metade da população americana sente evaporar nos pregões reais e virtuais um patrimônio coletivo dessa magnitude, é natural que a economia aquecida interrompa quase uma década de prosperidade continuada. O crash do mercado chipado é que ordenou o atual pouso suave da águia - PIB desacelerando de quase 5,5% ao ano para menos de 2,5%.
Ainda não está claro se o ajuste da Nasdaq já bateu no fundo do poço. Há quem diga que o fundo estaria na cota de 1.500 pontos na Nasdaq (ela que chegou a sobrevoar acima de 5.000 pontos há um ano). Haveria sobras de gordura para queimar neste primeiro semestre. Gordura acumulada no triênio 1997/99.
Em 1999, a Nasdaq enriqueceu os investidores com valorização acumulada de 85,6%. No ventre da Nyse, o Índice Dow Jones de Internet (de baixa visibilidade na mídia) emplacou nada menos de 167,3%. A Média Industrial Dow Jones, das empresas da velha economia, contentou-se com 25,2%. Ainda assim, uma festança.
O estudo da SEC revela que de 1990 a 1999, a Década de Ouro da economia americana, o Efeito Riqueza acumulou uma expansão real de 317,6%. Ou seja: os americanos estão chorando de barriga cheia. O tombo da Nasdaq nada mais é que um acerto inadiável de um mercado aparentemente sem lógica, mas dotado de instinto de conservação. Em certa medida, um mercado auto-regulável.
Nasdaq pousando em 2.000 pontos é uma solução e não um problema. Incluído o bloco das pontocom, com seus micos do tamanho de gorilas. Afinal, é bem mais seguro para a economia real tocar a vida com uma Amazon valendo, em bolsa, como vale agora em 2001, menos de 20% do valor da General Motors. Em 23 de dezembro de 1999, quando seu fundador Jeff Bezos virou Homem do Ano na capa da Time, a loja virtual valia 54% mais que a maior corporação industrial do mundo e da História.
Secos & Molhados
Na moita
- O balanço das perdas de mercado passa também pelo sumiço tático dos investidores de risco: os fundos que financiam novas empresas ou meros estalos, abrindo o capital delas em bolsa.
Lembram-se da febre IPO, sigla de initial public offerings?
Valia tudo
- No triênio 1997/1999, nada menos de 1.243 empresas entraram na Nasdaq via IPO. Com subscrição total, fulminante, por um valor médio 68% acima da cotação de abertura. No dia do lançamento, a VA Linux subiu 733%...
Residual
- Desde 10 de março de 2000, as starups de Internet, movidas a IPO, na mesma Nasdaq, não passaram de 13. Nada menos de 432 solicitações acabaram adiando o lançamento. Entre as quais, 9 pontocom do Brasil.
Com pressa
- Não basta ter idéia, é preciso faturar. Não basta faturar, é preciso lucrar. Em dois anos, no mais tardar. Eis a IPO 2001, com pés e chips no chão.





