‘‘Há sempre um momento no tempo em que uma porta se abre e deixa entrar o futuro.’’
Graham Greene (1904-1991), escritor inglês
Medo da vaca mansa
Escorada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, a Embrapa programou para 24 de abril, em Brasília, um seminário internacional versando sobre: 1) os impactos das novas tecnologias no desenvolvimento da agropecuária brasileira; 2) os impactos do desenvolvimento da agropecuária na economia e na sociedade.
Até por obra e graça da vaca louca alheia, a opinião pública está sendo despertada para o acompanhamento de tudo o que se passa na economia rural brasileira. Interesse anteriormente atiçado apenas por lances isolados de alguma quebra de safra na seca, na lama, na geada ou na praga ou por algum tiroteio nos calcanhares do MST. Ou por bravatas importadas do neoprotecionista francês, em causa própria, José Bové.
Recentes façanhas de pesquisadores brasileiros no ‘‘front’’ da biotecnologia voltada para alimentos e remédios enobreceram o noticiário em torno dos avanços qualitativos do nosso PIB agrícola.
Balanço que a Embrapa se propõe apresentar no seminário de abril.
Cultura por cultura, rebanho por rebanho, a grande central brasileira de pesquisa pretende mostrar tudo o que se fez e tudo o que resta por fazer na modernização continuada da economia rural brasileira.
Ou como diz Alberto Duque Portugal, presidente da Embrapa: ‘‘Acabou o ciclo do gigante deitado eternamente. O berço continua esplêndido, mas o mundo todo, finalmente, passa a precisar do Brasil. Com a gente, sem a gente e até contra a gente.’’
Com 6 bilhões de passageiros a bordo, a espaçonave Terra vai prosseguir multiplicando-se ao ritmo da ‘‘aritmética dos coelhos’’, na expressão cunhada por Mário Henrique Simonsen (1935-1997) no livro Brasil 2001, de 1969. A ONU acaba de informar que a ocupação da espaçonave deve crescer de 6 bilhões de terráqueos, em 2000, para 9 bilhões, em 2050. Nessa aposta da ONU, crescimento de 50% no número de bocas e de até 15% no consumo por habitante.
Consumo global de alimentos monitorados (os nutracênicos), de fibras naturais, de resinas industriais, de matérias-primas em geral, de energia da biomassa, de medicamentos da biodiversidade... Um cenário que estimula o interesse (e o ciúme) de meio mundo pelo potencial brasileiro. Temos na economia rural, não apenas o maior espaço sob uma só bandeira - temos o único grande elástico da Terra ainda não puxado na horizontal do território nem da vertical da produtividade.
E mais: com reserva tropical de 12 meses no conceito hectare/ano. Contra menos de 6 meses nos atuais donos da fartura planetária. Fartura subsidiada e, de resto, encalhada. Incluído o ardido e caríssimo queijo roquefort de José Bové.
Secos & molhados
Assustados
- Eis a questão: ganhos de produtividade na agropecuária e saltos de excelência na biotecnologia, tudo ‘‘made in Brazil’’, acabam de assustar os canadás da vida nos dois lados do Atlântico Norte. Eles temem, em 2001, o despertar do gigante 2020.
Vaca mansa
- Ou como diz o secretário paulista da Agricultura, João Carlos Meirelles: ‘‘Eles não têm medo da vaca louca nas proteínas animais nem nas proteínas vegetais ou mesmo nas matérias-primas industriais. Eles morrem de medo é da vaca mansa brasileira em todo esse arco do agronegócio do futuro.’’ (Amanhã nesta coluna.)
Em colisão
- Se resolver problemas fundiários e civilizar créditos bancários, até por decreto, o Brasil Rural tem tudo para dominar o mercado global. Tanto mais, se a OMC pactuar o desmanche de subsídios dos ricos e das barreiras idem. José Bové, que estudou em Harvard e é filho de geneticista famoso, sabe o que faz: pedras na OMC.
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