Joelmir Beting
Analistas financeiros acreditam em tudo. Desde que o tudo lhes seja cochichado.
Warren Buffet, megainvestidor americano
Volta por cima
Reservas de US$ 35,4 bilhões. Ingressos no ano de US$ 24 bilhões (das múltis). Créditos externos reabertos e mais baratos. Serviço da dívida externa alongando-se. Balança comercial reequilibrando-se. Câmbio flutuante em ajuste de mercado. Blindagem financeira do FMI disponível para o que der e vier. Eis o Brasil vacinado contra vírus de crises alheias - incluído o pouso suave da obesa águia americana.
Assinado: Armínio Fraga, presidente do Banco Central do Brasil, falando para investidores, burocratas e consultores americanos, em Nova York e em Washington. Segundo ele, os indicadores da vulnerabilidade externa do Brasil, porta de entrada da fuzarca dos capitais voláteis, são hoje os mais tranquilos desde a estréia do Plano Real, em março de 1994.
Armínio Braga dourou ainda mais a pílula e a cenoura: o Brasil ingressa em longo ciclo de crescimento econômico com estabilidade monetária. E sem risco de desestabilização política. Jogadas eleitorais e intrigas palacianas fazem parte do jogo - no Brasil, na Alemanha, na Itália ou nos Estados Unidos.
Sobre a agenda brasileira das reformas, Armínio Fraga preferiu alongar-se nas propostas de independência (ou não) do próprio Banco Central (BC). Disse: Não se quer uma autoridade monetária com carta branca nem se pretende despachar o Banco Central para o Planeta Marte. O que se planeja é um BC servido por autonomia operacional, chumbada a objetivos claros e mandatos fixos. Objetivos e mandatos a salvo de pressões políticas.
Entenda-se por objetivos claros o dever de ofício de assegurar a estabilidade da moeda, na linha do expediente já implantado da fixação de metas inflacionárias (inflation targeting). Para um BC autônomo, a estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado.
Sobre a reforma tributária, assunto constrangedor, Armínio Fraga surpreendeu o mercado (e o governo) em sua palestra fechada para clientes do Salomon Smith Barney, quarta-feira, em Wall Street.
Ora, consta que a CPMF passará de provisória a permanente na reforma fatiada em gestação no Palácio do Planalto. Onde se cacareja o efeito delator do tributo automático, cumulativo ou cascateiro, a serviço da guerra santa, pero no mucho, contra a sonegação fiscal. Pois Braga chamou a CPMF de imposto infame e deu o furo de reportagem: Sua cobrança acaba mesmo no ano que vem. Ué!
Secos & Molhados
Outra face
- Armínio Fraga disse que o Brasil não vai entrar no engavetamento da desaceleração americana. Os americanos ficam com menos de um quinto das exportações brasileiras. E nossas exportações ainda estão abaixo de um décimo do PIB.
Sem grilo
- E mais: o pouso suave da águia reduz juros da dívida externa brasileira, aumenta o estoque de capitais ociosos para novos empréstimos e revaloriza o euro, poder de compra da União Européia, maior parceiro comercial do Brasil (29% dos embarques).
Da agenda
- O presidente do BC disse ainda que o Brasil vai aliviar a Lei de Falências para as empresas (endurecendo o processo para os donos delas) e deve afrouxar as regras de aplicação dos fundos de pensão (endurecendo as normas para os titulares da gestão).
Refresco
- Armínio Fraga também se comprometeu lá fora com a reabertura ainda mais veloz do crédito bancário aqui dentro: volume maior, prazo maior, risco menor, juro menor. Para produção e consumo. Sem risco de inflação de demanda.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





