‘‘Governar é a penosa arte de escolher entre o desagradável e o desastroso.’’
John Kenneth Galbraith, economista canadense
Mário Covas
O governador dos paulistas fez opção pelo desagradável. Ou seja: pelo ajuste fiscal leonino de um Estado literalmente destroçado pela gandaia financeira dos governos Quércia/Fleury. Escolha do desagradável para quebrar a correia de transmissão do desastroso.
Desde que a democracia representativa foi inventada, a gastança pública tem sido a moeda única de governos que não governam porque não se governam e não se deixam governar. Um exercício político agradável e lucrativo: o povo não esconde sua predileção pelo governante mestre-de-obras, ao tempo em que abomina o governante guarda-livros.
Mário Covas (1930-2001) vestiu-se de guarda-livros, mesmo sabendo que o déficit público, embora detestado nos efeitos, continua até hoje adorado nas causas. A maior delas, na cultura verde-amarela, é a pusilanimidade de políticos que fazem as obras sem fazer (e sem pagar) as contas. Não raro, obras mal priorizadas, mal projetadas, mal executadas, mal fiscalizadas, mal financiadas. E, quase sempre, obras superfaturadas.
Com São Paulo na sala de cirurgia, o governo Mário Covas transformou um déficit orçamentário de 21,7% da receita líquida, na posse em janeiro de 1995, para posições superavitárias já a partir de 1997. O resultado primário, que determina a capacidade de pagar a dívida contratada para financiar o déficit, evoluiu de um vermelho de R$ 7,5 bilhões, em 1994, para um azul de R$ 2,2 bilhões em 2000.
E, não menos importante, a poupança estadual, traduzida pela capacidade de investimentos públicos em planos e obras, escapuliu, no mesmo período, de um rombo de 2,6% da receita corrente para uma folga de 12,1% no ano passado. Quando foram investidos R$ 3,1 bilhões em ampliação e modernização dos serviços públicos.
Na linha de 1 governante em cada 20 ou em cada 30, Mário Covas comprovou que a administração pública responsável e transparente, ainda que eleitoreiramente suicida, é perfeitamente viável na sociedade brasileira. Viável tecnicamente, viável juridicamente, viável politicamente. Tanto assim que foi reeleito em 1998, partindo da quarta posição nas primeiras pesquisas do ano.
O governador me diria, pela GloboNews, logo após a reeleição: ‘‘Alguém já disse que o povo não sabe o que quer, mas cuidado com o povo: ele sabe o que não quer.’’ Quem escreveu isso, em 1989, foi o jornalista Paulo Francis (1930-1997), citado por Ruy Castro em O Poder de Mau Humor (Companhia das Letras - 1993).
Secos & molhados
Vespeiro
- São Paulo também era um cabide de empregos. No orçamento estadual de 1995, escrito por Fleury, Covas trombou com 85% da arrecadação do Estado comprometida com a folha do pessoal. Em 2000, nada além de 57%.
Sem medo
- O governador guarda-livros festejou, de camarote, o advento, este ano, da Lei de Responsabilidade Fiscal - que no trato das contas públicas pode ser traduzida por Lei de Responsabilidade Moral.
Brigador
- Mário Covas garantiu blindagem política aos bisturis do secretário da Fazenda Yoshiaki Nakano e ao secretário-adjunto (hoje titular) Fernando Dell. Alistou-se no ‘‘front’’ da infantaria contra a guerra fiscal predatória de Estados e municípios. E até saiu fisicamente no braço contra servidores arruaceiros.
Ajustado
- Resume a colunista Sonia Racy: ‘‘No ajuste fiscal, Mário Covas não deixou a equipe na mão. Por consequência, São Paulo é hoje um Estado que cabe dentro de suas próprias contas.’’

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