Joelmir Beting
Não quero explicar o passado nem adivinhar o futuro. O que eu mais quero, mesmo, é entender o presente.
Jorge Luis Borges (1899-1986), escritor argentino
O 12 pela dúzia
A Gillette acaba de optar pelo fechamento da fábrica na Argentina e pela ampliação da unidade no Brasil. A Philips encerra agora em março a produção de eletrodomésticos na Argentina. A Unilever fecha as portas da fábrica de sorvetes na Argentina. A Daimler-Chrysler desativa a fábrica do Jeep Cherokee na Argentina e estuda a abertura dessa mesma linha no Brasil. A Esparta, a Júpiter, a Netuno...
Eis a verdadeira crise de fundo da Argentina 2001: a fuga em bloco de fábricas e de projetos das empresas transnacionais. Movimento por elas camuflado, em comunicados oficiais, pela reestruturação global dos respectivos parques produtivos. Processo que esvazia a bola já murcha da Argentina, na justa medida em que enche a bola agora arredondada do Brasil.
Enquanto os investimentos diretos das empresas globais de todos os setores saltaram aqui no Brasil para a média anual de US$ 29,4 bilhões no triênio 1998/2000 - pós-crise da Ásia e da Rússia -, a ração da Argentina ficou pela média de US$ 12,2 bilhões. Com projeção para menos de US$ 8,5 bilhões em 2001. Exatamente quando a Argentina, com um pé na inadimplência (default), deu de catar centavos pelos desvãos do déficit externo, agora sob blindagem leonina do FMI.
A troca de comando no Ministério da Economia (José Luis Machinea entrega a bola quadrada a Ricardo López Murphy, que pilotava o Ministério da Defesa) não deixa de ser a substituição do 12 pela dúzia. A Argentina continua sem programa alternativo para a anorexia cambial em que se meteu em julho de 1991. O resto é máquina de enxugar gelo com toalha quente.
A economia entra no 33.º mês de estagnação. Ano passado, para uma expansão anunciada de 4%, o PIB amargou recessão de 1,2%. Com desemprego estimado de 14,7% neste primeiro trimestre (o do Brasil deve ficar abaixo de 7%, com PIB projetado para 4,5%).
Na equação custo/benefício, a estagnação econômica ajuda a perpetuar a estabilidade monetária, aliviando a pressão sobre o câmbio congelado. Os argentinos estão há 14 meses corridos em deflação. O que não descarta reajustes de preços públicos acima de 10% ao ano (tal como se faz aqui no Brasil, mas com IGPM de 9,15% nos últimos 12 meses).
Politicamente desgastado, o governo De la Rúa altera o primeiro escalão na linha da máxima do príncipe de Lampedusa: sob certas condições, as coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas.
Secos & Molhados
Arrocho
- O novo ministro não deve afrouxar o garrote fiscal do governo central nem do pacto fiscal das Províncias. Não haverá refresco tributário para as empresas. E relança-se no Congresso o facão de benefícios para aposentados e pensionistas.
Imbróglio
- A troca ministerial pode precipitar a remoção cirúrgica do presidente do Banco Central. O titular Pedro Pou entra em investigação aberta sobre denúncias de que estaria comandando uma rede de lavagem de dinheiro...
Viés de baixa
- A credibilidade externa da Argentina, recauchutada por De la Rúa, encerra a lua-de-mel com Wall Street. Indicadores de risco voltaram aos baixos níveis de antes da blindagem de US$ 39,7 bilhões oferecida pelo FMI. Pelo menos, até Murphy em contrário.
Única saída
- O futuro da Argentina está na Alca, sustentam consultores de bancos e fundos americanos. Alca 2003. Não daria para esperar por uma Alca 2005. A moeda comum já existe: o dólar/peso. Sem desvalorização nem dolarização.





