Joelmir Beting
A energia mais cara do mundo é a energia que não existe.
Thomas Edison (1847-1931), cientista americano
Águas de março
Fechando o verão, as águas de março terão de ser especialmente generosas, bem acima da média histórica da estação. Caso contrário, haverá problemas de geração de eletricidade no próximo inverno, que é do ramo dos reservatórios minguados.
A projeção de riscos de abastecimento de energia aí pela proa de 2001 é da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib). Presidente da entidade, José Augusto Marques diz à coluna que o sistema deu de operar quase no limite físico da água escassa. A margem de segurança, que já foi de até 20%, inclina-se para menos de 3%. Os reservatórios estavam abaixo das cotas normais desde a primavera e não foram suficientemente vitaminados neste verão.
A avaliação física do sistema, em todo o território nacional, deixa de ser uma chutometria recheada de álgebra. Entra em campo, finalmente, o monitoramento via satélite. No caso, o velho Landsat, com seu olhar sideral repousando diuturnamente nos 123 reservatórios que cobrem áreas de 694 municípios brasileiros.
Antiga aspiração do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos, SP, o novo trabalho já está nas mesas e nos painéis da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Com ele, a Aneel passa a produzir um índice confiável de enchimento/esvaziamento de todos os reservatórios. De interesse tanto do monitoramento da oferta de energia (regulando fluxos e refluxos de vazões) como da prospecção ambiental dos lagos e mananciais. De sobremesa, o índice recalibrará o pagamento, pelas geradoras e transmissoras, das taxas municipais de compensação financeira por território ocupado.
Para enquadrar os assuntos do setor, a Abdib realizará em São Paulo, de 24 a 26 de abril, o Fórum Brasileiro de Energia Elétrica, com direito a uma primeira exposição de projetos para geração, transmissão e distribuição de energia. José Augusto Marques diz que será este o primeiro encontro, num mesmo megaevento de três dias, dos donos de projeto com os donos de capital.
Nesta altura do calendário, o consumo de energia eleva a pressão sobre uma oferta reprimida pela natureza. Nossas usinas dos rios domados respondem por 92% da matriz energética brasileira (com capacidade instalada para 66 milhões de MW). A expansão do setor, estrela do Fórum da Abdib, aguarda duas grandes tomadas, segundo José Augusto Marques: um novo marco regulatório pós-privatização e um novo padrão de financiamento de projetos e negócios do ramo.
Secos & molhados
Salomônica
- José Augusto Marques não inveja o desafio institucional da Aneel, sob o tampão de um ministério ainda mais político do que técnico. O desafio de contentar, a um só tempo, o investidor, o operador e o consumidor.
Sem refresco
- A corrida é contra o relógio do racionamento. A energia suplementar do gás natural ainda aquece as turbinas na cabeceira da pista do tal de Programa Prioritário de Termoeletricidade (PPT). Amanhã, nesta coluna.
Pensando 2020
- A Abdib costura o programa Infra 2020: o que devemos (e podemos) fazer, até lá, em energia, petróleo, mineração, telecomunicações, transportes, turismo, saneamento, proteção ambiental... Um canteiro de obras avaliado em meio trilhão de dólares (www.infra2020.com.br).
Em segundo
- Na Infra 2020, o Brasil só perde, no mundo, para o planeta China. Com um canteiro rebaixado, em novembro, até 2020, de US$ 940 bilhões para US$ 770 bilhões.
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