Joelmir Beting
Não deve ser coincidência. Toda vez que a economia brasileira ensaia engrenar, estoura uma crise política para atrapalhar.
Eduardo Giannetti da Fonseca, economista
Crise? Que crise?
Políticos de carreira, que a antiga crônica do ramo chamava de velhas raposas, cultivam uma lógica profissional obtusa. Eles sabem que as soluções acabam com os problemas, mas sentem que os problemas rendem bem mais que as soluções. Assim sendo, em política, quem não tem problemas inventa problemas.
A economia ainda em transe e a sociedade sempre em fraude que se danem. O escandalômetro planaltino é da variedade rosca sem-fim. A costura de arreglos eleitoreiros para 2002 aguça ainda mais o apetite de carreiristas que não sabem fazer outra coisa na vida a não ser servir-se do povo. Até porque, como disse um dia o velho Henry Fonda, em debate de televisão com a própria filha, Jane: Amar o povo é fácil. Difícil é amar o próximo.
A esgrima de baixarias que pavimentou a renovação (???) das Mesas do Senado e da Câmara, rachando a chamada base política do governo FHC, dá inteira razão a Henry Kissinger, ex-chanceler americano: Cerca de 90% dos políticos existentes dão aos 10% restantes uma péssima reputação. Ele se referia, evidentemente, aos políticos americanos.
No caso brasileiro, o problema é agravado pelo que Sérgio Motta chamaria de masturbação conspiratória da mídia coisa-preta, com síndrome de mídia chapa-branca. Ou como diz Alberto Dines:
Editores alarmados produzem manchetes alarmistas. Isso vale para o cotidiano político e para o noticiário econômico. A última pérola do gênero conquistou manchete, sexta-feira, 23, na Folha de S. Paulo: Colapso turco ameaça tragar Argentina.
Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Daniel Gleizer diz que a crise política made in Brasília preocupa os investidores estrangeiros, pressiona a taxa de câmbio e causa ansiedade nos meios empresariais. Entende, entretanto, que se trata de mais uma bolha transitória, que se desfaz nesta Quaresma. O resto é especulação política a serviço da especulação cambial, ambas do ramo do sobressalto.
E a crise externa intermitente, agora de padrão turco, argentino ou simplesmente americano? Presidente do Banco Central, Armínio Fraga rendeu manchete no Valor Econômico da Quarta-Feira de Cinzas: Mercado exagera no pessimismo, diz Fraga. Também no front externo, nada de novo na frente ocidental. O tal de mercado, formado por garotos de 29 anos, segundo Paul Krugman, continua fazendo muito sensacionalismo quando certas coisas vão bem e um baita catastrofismo quando outras coisas vão mal.
Secos & Molhados
Baixo risco
- Para Armínio Fraga, a condição do Brasil é hoje de baixo risco - em que pese, ainda nas palavras dele, a visão equivocada da maioria dos analistas que fazem o mercado.
Novo ciclo
- A economia brasileira, diz ele, penetra em ciclo de crescimento econômico com estabilidade monetária. O antigo gargalo do balanço de pagamentos está sendo removido pelo capital externo produtivo e não meramente camuflado pelo capital volátil especulativo.
Novo limite
- Com taxa de investimentos produtivos da ordem de 19% do PIB (na estimativa do próprio BC), a economia suporta expansão anual pela faixa de até 5%. Mas, se quiser crescer de 6% ou mais, calcula Armínio Fraga, aí a formação bruta de capital fixo teria de ficar acima de 25% do PIB. Não é para 2001 nem para 2002.
Mirandópolis
- E se estourar uma crise no Parlamento da Nova Zelândia? E se a Rússia atrasar a prestação de fevereiro? E se o ACM localizar (e abrir) a caixa-preta? Valha-nos Eurico Miranda!
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