‘‘O real não está na largada. O real não está nem na chegada. O real só se apresenta pra gente é no meio da caminhada.’’
João Guimarães Rosa (1908-1967), diplomata e escritor
Plano Real, ano 8
Aquilo, sim, é que foi âncora cambial. Ela durou de 1.º de março a 30 de junho de 1994. Numa mesma entidade monetária, a Unidade Real de Valor (URV) realizou a clonagem do dólar (moeda) e da taxa de câmbio atrelada ao dólar (indexador). A URV foi a Dolly do Dollar.
Com essa alquimia de laboratório, os autores do programa de estabilização encontraram a solução única para um desafio único: o da desindexação voluntária e progressiva da economia mais indexada do mundo e da História. Façanha concebida no distante 1983 por jovens acadêmicos da PUC/RJ, liderados por André Lara Resende, Pérsio Arida e Edmar Bacha.
Eles não confirmam, mas dizem que o Plano Real, que nós do jornalismo econômico apelidamos de Plano Larida, chegou a ser oferecido (e recusado), sucessivamente, aos economistas dos governos Figueiredo, Sarney, Collor e Itamar. Em 1986, Resende, Arida e Bacha fizeram parte da equipe do Plano Cruzado.
Embrião do Plano Real, a URV permaneceria no congelador até a presença, no Ministério da Fazenda, já no governo Itamar, de um sociólogo enrustido: o então senador Fernando Henrique Cardoso, que estava chanceler do Brasil. O sociólogo aceitou a proposta esnobada por todos os economistas, desde Delfim Netto. O duro foi explicar a URV ao presidente Itamar...
Raciocínio do ministro Fernando Henrique Cardoso: a) os autores do plano são competentes, confiáveis e amigos de velha data; b) se o plano não der certo, o constrangimento profissional será deles, os economistas, e não do sociólogo e menos ainda do presidente (que entendia de economia aplicada tanto quanto de física quântica); c) se o plano der certo, bem... aí o ministro teria chance de sair candidato nos primeiros quatro meses da URV para virar presidente da República no quarto mês do real.
E deu-se o milagre do desmonte sumário da terrível inflação (re)indexada, dita inercial. Solução ofídica do contraveneno da própria indexação. Preços e contratos indexados ou dolarizados, com correção até diária, passaram a ser ‘‘urvizados’’ diariamente por um mesmo indexador. Indexação máxima para a desindexação indolor. Que Itamar não nos leia: a urvização plena foi a dolarização suprema.
Eis a lógica pura do Plano Real, que hoje inicia o oitavo ano de carreira: preços e contratos estabilizados informalmente em dólar passaram a estabilizar-se formalmente em URV. Em 1.º de julho de 1994, cada URV passou a valer um real, que passou a valer mais que o dólar. Ora, por que não estabilizar preços e contratos também em real?
Secos & molhados
Fantástico
- E tome a desindexação voluntária e progressiva, com a quebra da correia de transmissão da então inarredável inflação inercial. Inflação que se alimentava da própria correção, acrescida do adicional defensivo do IGPM a futuro, sinalizado pela taxa over de 30 dias.
Quatrilhão
- Em 30 anos corridos de uso e de abuso da correção monetária, a inflação inercial do brasil desavisado acumulou, ponta a ponta, um IGP-DI de 1,143 quatrilhão por cento! Sabia? Doeu?
Um horror
- overnos e empresas desfrutavam de reposição plena da inflação cheia. Metade da população tinha correção monetária. A outra metade, corrosão inflacionária. Eis a causa maior da explosiva desigualdade social no período. Brasil 93 desfilando a taça de chumbo da renda mais concentrada do mundo.
Maturação
- Neste oitavo aniversário da URV, o Plano Real ensaia refazer no ano a inflação que antes dele era de um dia. Sem congelamento, sem recessão, sem âncora cambial. Que tal?

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