‘‘O poder econômico tornou-se global. O poder político continua local. Eis o reator da vulnerabilidade externa - que é de todos os países.’’
Fernando Henrique Cardoso, presidente da República (1998)
Valha-nos Rei Momo
De J. G. H., engenheiro: ‘‘Não sei se troco de carro ou se espero a reação da Nasdaq.’’ De G. T. M., advogado: ‘‘Não sei se alugo o escritório ou se espero a virada da Argentina.’’ De R. B. F., construtor: ‘‘Não sei se fecho o contrato ou se espero a reunião do Fed.’’ De D. B. R., decoradora: ‘‘Não sei se aceito a encomenda ou se espero a queda do gabinete argelino.’’ De W. V. S., economista: ‘‘Não sei se mudo de emprego ou se espero o ajuste cambial na Turquia.’’
Os nomes são fictícios, as neuras são reais. Desde outubro de 1997, os brasileiros deram de protelar decisões de negócio, de consumo ou de trabalho por obra e (des)graça de crises rotineiras importadas. Como se já não bastassem as crises aqui mesmo fabricadas ou simplesmente por nós fantasiadas.
Ah! A crise global é séria! Não, cara pálida. Séria foi a crise global dos anos 80. Coices encavalados do petróleo (a dólar de hoje chegou a valer US$ 73 o barril) e choques sucessivos dos juros internacionais (de 6% para até 21% ao ano entre 1979 e 1981) produziram a chamada Década Perdida em todo o Terceiro Mundo, Brasil no meio. A década da ‘‘debt crisis’’.
Lembram-se? Pouca gente se lembra. A quebradeira em cascata, vulgo calote coletivo, começou em 1983, exatamente pelo México, então beneficiado pela disparada dos preços do petróleo. Ora, se nem o México, encharcado de óleo, estava conseguindo honrar o serviço da dívida externa contratada nos anos 70, qual não seria na época a vulnerabilidade do Brasil, então atropelado pelos barris e esfaqueado pelos juros?
O Brasil importava 83% do petróleo consumido aqui dentro. A dólar de hoje, a sangria cambial do petróleo alheio chegou a US$ 18 bilhões, em 1981. Tivemos de espichar a dívida externa para tão-somente pagar o consumo de derivados (sem racionamento). E na rolagem da dívida externa, a conta dos juros ficou quatro vezes maior no triênio 1980/1982.
Isso, sim, é que foi crise global importada pelo Brasil. Global antes da globalização. Em 1987, estavam em moratória unilateral nada menos de 34 países submergentes, Brasil à frente. Sem nenhum Fórum Social para exigir o ‘‘moral hazard’’ do perdão da dívida dos inadimplentes sem alternativa. Hoje, ‘‘crise global’’ empolgando manchetes, estão em moratória apenas a Rússia e o Equador. E sob blindagem do FMI (inexistente nos anos 80), a Argentina, a Turquia e, residualmente, o Brasil.
Secos & Molhados
Sem perdão
- Nos anos 80, os bancos pararam de rolar a dívida do Terceiro Mundo. A nossa, desde outubro de 1883. De receptor líquido de capital, o Brasil passou a doador líquido do próprio. Espécie de transfusão de sangue ao contrário: do pedestre atropelado para o motorista que o atropelou. Dentro da UTI do FMI.
Sem opção
- Pilotando o rabo desse foguete, o governo Sarney teve de jogar a toalha da moratória dita ‘‘soberana’’ em 1987. O Brasil ficou fora do sistema financeiro internacional (incluído o capital volátil) até meados dos anos 90. Ainda hoje, em 2001, pagamos sobretaxas de risco pela moratória de 1987.
Sem noção
- O mundo não piorou. A informação é que melhorou. Ela passou a dar a volta ao mundo em um segundo. Com massa crítica, por falta de senso crítico, para fazer de um escândalo político na Turquia ou de um déficit fiscal na Malásia um baita ‘‘crash’’ nas bolsas do mundo - que são do ramo do susto, por vocação e necessidade.
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