‘‘O Brasil nunca foi um país capitalista. Sempre foi um paraíso capinanceiro.’’
Roberto Campos, em O Século Esquisito (1990)
Menos sobre mais
Os bancos brasileiros nunca ganharam tanto dinheiro como em 2000. Mais até que em 1999, exercício da fanfarra cambial. Sem o efeito câmbio, o lucro médio sobre o patrimônio líquido de 34 balanços anuais já publicados foi da ordem de 24,7%. Nos Estados Unidos, a rentabilidade média do sistema, em 1999, foi de 9,4%.
Com retorno de 27,7%, o Itaú apurou o encaixe maior em valores absolutos: R$ 1,841 bilhão. Ante R$ 1,740 bilhão do Bradesco ou R$ 974 milhões do Banco do Brasil. Boa parte do ganho anual dos bancos está sendo atribuída à expansão do crédito ao setor produtivo: de 34% nos empréstimos às empresas e de 82% nos financiamentos às pessoas físicas. Expansão nominal ponderada de 66,3%.
Sim, nada mais lucrativo (e arriscado) que alugar capital aos atores da economia real. Tanto assim, que se deu na travessia de 2000 o reencontro do sistema com uma velha praxe bancária, no lembrete de Ilan Goldfajn, diretor de Política Econômica do BC: a saudável praxe de ganhar menos sobre cada vez mais.
Ou seja: créditos maiores a juros menores, com os ganhos por aumento do volume ou da escala compensando, com sobras, as taxas em declínio por unidade de financiamento. Os juros na ponta do setor produtivo recuaram um décimo (10,6%) em 2000. O detalhe: a Selic, na base do sistema financeiro, encolheu um quinto (20,6%).
No fechamento do ano, segundo o Bacen, taxas médias anuais de 34,6% para as empresas e de 66,5% para as pessoas físicas. Entre as primeiras, juros anuais trafegando de 32,5% no capital de giro a 44,7% no desconto de duplicatas. Entre as segundas, juros pendulares de 35,1% no crediário dos automóveis a 152,7% no come-quieto do cheque especial, mui especial.
Ainda pela média do sistema, o ‘‘spread’’ bancário está igualmente em baixa: de 38,4%, em junho, para 35,2%, em dezembro. Distância que vai do que o banco paga ao poupador numa ponta ao que cobra do mutuário na outra, o ‘‘spread’’ está assim decodificado pela média dos 10 maiores bancos: 26% de cunha fiscal, 21% de custos de captação e operação, 18% de lucros e provisões e 35% de prêmios de risco (sem distinção de créditos bons ou ruins).
Risco? Créditos maiores a juros menores baixaram ligeiramente o índice da inadimplência geral do sistema (atraso superior a 90 dias). Nos bancos, queda de 3,2% dos empréstimos totais, em junho, para 3,1%, em dezembro. Nas lojas, de 8,5% para 5,1%. Saravá!
Secos & Molhados
Sem farra
- A expansão do crédito bancário para investimento, giro, produção e consumo - daquela ordem nominal de 66,3% - ainda está longe de caracterizar uma ‘‘farra de crédito’’ de padrão asiático. A oferta total ainda está abaixo de um terço do PIB aqui da anta. Na tigrada, ela chegou a 140%. Na média mundial, 86%.
Sem neura
- A subutilização do crédito bancário ainda não tem massa crítica para desencadear uma erupção da tal de inflação de demanda - insônia de 11 em cada 10 economistas. Mesmo com PIB ensaiando acelerar de 4% para 5% ao ano. As empresas, tal como os bancos, estão reaprendendo a ganhar menos sobre mais.
Sem pressa
- Para Ilan Goldfajn, a expansão do crédito em 2001 será moderada. A de 2000 foi atípica, porque teve como base de lançamento o garrote monetário de 1999 (iniciado nos anos 80). O Bacen não pode emitir metas para crédito nem para câmbio. Ele se contenta em admitir que a oferta bancária vai continuar crescendo. Com nova redução dos compulsórios?

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