Joelmir Beting
Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos. É justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis.
Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), filósofo romano
A vaca que ri
Ao eleger o bife brasileiro como boi expiatório da vaca louca canadense, o governo de Ottawa - cujo primeiro-ministro é sogro do presidente da Bombardier versus Embraer - prestou a todos nós um duplo serviço: 1) um primeiro ensaio de afirmação internacional ainda sob as escamas da velha diplomacia da contemporização;
2) um despertar conjunto de Brasília e do Brasil para a importância do controle sanitário das nobres proteínas animais.
Nunca se falou tanto em erradicação de epizootias e zoonoses nos criatórios industriais de bois, frangos e suínos. E não apenas para o atendimento das salvaguardas do mercado mundial - também para a cobertura das novas exigências do consumidor brasileiro. Um consumidor cada vez mais exigente, seletivo e excludente. O tal que não mais aceita gato por lebre.
A vaca brasileira ainda ri da loucura da vaca européia ou da vaca canadense. Ou da paúra da vaca americana e, mais ao longe, da vaca australiana. Esta, de genética ainda hoje made in England, foco natal da ilustre Encefalopatia Espongiforme Bovina. Mas já temos casos isolados de ovelha doida, com recidivas de peste suína e infestações recorrentes das três grandes zoonoses bovinas: aftosa, brucelose e tuberculose.
Com sobras para os rebanhos vizinhos do Uruguai, Argentina e Paraguai. Neste momento de retaliação protéica maquinada pelo Canadá, o Brasil engrossa o ossobuco com a Argentina, ensaiando barreiras sanitárias na fronteira gaúcha. Teme-se pela infiltração da aftosa já detectada em rebanhos de cinco Províncias.
A vaca argentina perdeu o sorriso. Os novos focos, ainda não oficialmente admitidos pelo governo argentino, eclodem justamente na hora de reabrir contratos de exportação para os Estados Unidos - reabertura ajustada para este sábado, 24. A pressão brasileira, que é oficial, desafia a cortina de silêncio adotada pela Casa Rosada.
Em matéria de aftosa, o Brasil vem fazendo uma penosa lição de casa. Desde 1995, a contenção da doença já consumiu gastos de exatamente R$ 2 bilhões. O setor público entrou com 40% desse valor. A aftosa ainda ganha de goleada no arco do Nordeste e do Norte, chuta canelas em Mato Grosso do Sul e só entrega o jogo com vacinação em massa no restante do País. A zona livre de aftosa (com vacinação) hospeda, hoje, 80% do rebanho nacional de 160 milhões de cabeças. Rio Grande do Sul e Santa Catarina fazem a única zona livre sem necessidade de vacinação. Se a Argentina não atrapalhar.
S e c o s & m o l h a d o s
Antes tarde
- Presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte, Antenor Nogueira diz que a vaca louca dos outros deu charme político ao controle da febre aftosa da nossa. De fato, pela primeira vez a aftosa rende manchetes de jornal.
Pulo do boi
- Para o Canadá, o problema do Brasil não é o da vaca louca. Bem ao contrário, é o da vaca mansa. O rebanho brasileiro, se devidamente monitorado, tem massa crítica para tomar conta do mercado mundial dentro de mais dez anos, diz Luiz Suplicy Haffers, presidente da Sociedade Rural Brasileira.
Patinando
- Por enquanto, nossa presença no mercado mundial ainda é meramente residual. Algo parecido com US$ 2 bilhões por ano, na soma das carnes de boi, porco e frango.
Expandindo
- O mercado mundial cresceu, na década passada, pela média anual de 3,1% no leite, de 3,6% na carne bovina, de 6,2% na carne suína e de 7,7% no frango. Nos paises ricos, expansão média de 1,9%. Nos emergentes, 5,4%.





