Joelmir Beting
A Internet é mais que a maior rede de computadores do mundo. Ela é, historicamente, a primeira rede mundial de pessoas.
Hélio Gurowitz, jornalista
Siliconização
Siliconizar não é estufar os corpos de mulheres vaidosas. Siliconizar é espalhar distritos de alta tecnologia pelos parques industriais de meio mundo. Yes, no exato figurino americano do Vale do Silício.
O verbo siliconizar é mais um neologismo da já riquíssima semântica plugada na atual revolução das tecnologias (e dos negócios) da informação. Agora, em plena explosão da interconectividade: a do casamento poligâmico e indissolúvel de datacom, telecom, pontocom e midiacom.
Fiquemos no espalhamento dos clones dos clusters do Vale do Silício. O modelo da concentração de empresas de alta tecnologia (e respectivos provedores de bens, serviços, pesquisas, escolas e capitais) num mesmo endereço, com ou sem incentivos fiscais, está sendo praticado em meia dúzia de Estados americanos e em dezenas de países dos cinco continentes. No Brasil, destaque para São Paulo (capital e Campinas) e para tentativas de siliconização no Amazonas, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia e Triângulo Mineiro.
Nos Estados Unidos, nas pegadas digitais do Silicon Valley (Califórnia), o advento em bloco do Silicon Desert (em Utah e Arizona), do Silicon Alley (Nova York), do Silicon Hills (Austin, Texas), do Silicon Mit (Massachusetts) e do Silicon Forest (Seattle e Portland). Fora dos Estados Unidos, a siliconização deu de selecionar alguns endereços, no mínimo, exóticos: Côte dAzur (França), Parque das Pirâmides (Egito), Hsinchu Science Park (Taiwan), Bangalore (Índia), Silicon Taiga (Rússia) e Akademgorodok (Sibéria).
Japão, China, Coréia, Inglaterra, Finlândia, Suécia, Austrália e Nova Zelândia igualmente hospedam ambiciosos distritos de siliconização. Mas nada se compara, em matéria de iniciativa de governo, aos projetos ufanistas da China e da Malásia. O primeiro é um futuro ciberporto de US$ 3,5 bilhões, em terrenos doados pelo governo de Pequim no entorno de Hong Kong. O segundo é o Silicon Cyberjaya, do tamanho de Salvador, orçado em US$ 21 bilhões.
Na decolagem da corrida espacial dos anos 50, Nikita Kruchev mandou instalar nos confins da Sibéria, da noite para o dia, a cidade Akademgorodock (literalmente, Cidade Acadêmica). Projeto científico para fins militares, centrado na química de combustíveis, mísseis e satélites. O centro remoto, hoje com 45 mil habitantes, só foi siliconizado para as tecnologias da informação nos anos 80, por Mikhail Gorbachev.
Diferentemente do Silicon Valley, faltam aos clones siliconizados da China, Índia, Rússia e Brasil as outras duas pernas do tripé californiano: os atrevidos investidores de risco (business angels) e os fanáticos compradores de novidades (digital upscale believers).Secos & molhados
Paradigma
- O Vale do Silício abriga 2,2 milhões de habitantes e nada menos de 6.300 empresas de alta tecnologia. O salário médio do cluster foi de US$ 97 mil em 2000 (chegou a US$ 124 mil, em 1999, canto do cisne da euforia pontocom). O emprego direto na região caiu de 340 mil para 285 mil - desde março.
Parceria
- Cientistas, professores e estudantes das universidades Stanford e Berkeley transitam pelas empresas high tech com a mesma freqüência e sinergia com que pesquisadores, executivos e funcionários das empresas circulam pelas escolas.
Suporte
- Do Silicon Valley Bank ao Kleiner Perkins Fund, passando pelas corretoras Merryll Linch e Goldman Sachs ou pelas consultorias McKinsey e Ernst & Young - logística de negócios é o que não falta, a domicílio, no Vale do Silício.
Calmaria
- Que não se confunda o estouro consumado da bolha da Internet em Wall Street com o avanço continuado da onda da Internet no Silicon Valley. O choque do primeiro e o ajuste do segundo devem ser encarados como uma solução e não um problema.





