Joelmir Beting
Os europeus são extraordinariamente pacientes - desde que as coisas sejam feitas a seu modo.
Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica
Década da Europa?
Década do Japão (70). Década da Ásia (80). Década dos Estados Unidos (90). Decola agora a Década da Europa? O megabloco dos 15, a caminho de 21, teria massa crítica para ocupar o vácuo hoje deixado pelo pouso suave, pero no mucho, da águia americana?
Economistas e cientistas políticos europeus e americanos, sondados, paralelamente, pela The Economist e pela Business Week, estão divididos. Metade acha que chegou realmente a vez da Europa, ao fim e ao cabo de duas décadas de letargia institucional e de anemia econômica. A outra metade jura que os Estados Unidos estão simplesmente resfriando o radiador para uma nova arrancada de prosperidade econômica com estabilidade monetária e neutralidade fiscal. Sim, já a partir do segundo semestre de 2001.
Em 2000, a economia européia cresceu 3,4%, maior índice em 17 anos. O desemprego, que vinha cravando 11% na média do bloco, baixou piedosamente para 8,7%. Desempenho ainda bem abaixo das médias anuais americanas de 1996/2000: de 4,6% na produção e de 4,1% no desemprego.
Para 2001, a maioria dos cenaristas aposta em repeteco de 2000 - a despeito da desaceleração da locomotiva americana. O Banco Central Europeu, casado com taxa básica de 4,75%, talvez venha a rebaixar os juros da base em meio ponto porcentual até o terceiro trimestre. A inflação média do bloco não tem passado de 2,4%, mesmo com reaquecimento da demanda.
Em processo de convergência macroeconômica, forçados pelo advento da moeda única (euro), os europeus deram de fazer a colheita, ainda que tardia, dos frutos da mesma semeadura da economia americana desde meados dos anos 80. Uma transfusão de óleo canforado nas veias do gigante anoréxico: modernização tecnológica, revolução administrativa, flexibilização regulatória, competição estimulada, descompressão tributária, saneamento fiscal e - fechando a roda - desvalorização do euro no rodapé do dólar.
Enquanto políticos, intelectuais e sindicalistas europeus choram sobre o leite derramado da globalização e do neoliberalismo, os agentes da economia em marcha - empresários, executivos, investidores, profissionais e consumidores - preferem ignorar os moinhos de vento da exasperação ideológica e cuidam de fazer do limão da integração européia por decreto a doce limonada da Grande Europa 2010. Fundada hoje no tripé reestruturação das empresas, reengenharia dos governos e relançamento dos mercados. O resto é conversa fiada - de Davos ao Guaíba.
Secos & molhados
Liderança
- Os europeus dispõem de um sistema bancário mais sólido que o dos americanos. Lideram a explosão da telefonia celular em todo o mundo. A Airbus acaba de igualar a Boeing no mercado global de jatos de passageiros. As montadoras européias recuperam mercados perdidos para as japonesas e coreanas.
Elo perdido
- A desvantagem européia maior está menos na inovação tecnológica e mais na produtividade do trabalho. Esta cresce 3,1% nos Estados Unidos e nada além de 0,7% na Europa.
A legislação trabalhista é anacrônica e onerosa.
Sem pânico
- A sociedade européia não se deixou ficar refém do Efeito Riqueza (ou Pobreza) das Bolsas de Valores. As famílias têm apenas um quinto do patrimônio no mercado de ações. As famílias americanas têm perto de dois terços.
Mão-de-vaca
- Culturalmente, o europeu coloca a poupança à frente do consumo e do crediário. Talvez esteja aí o dinamismo maior da economia americana - o da insopitável propensão ao consumo de todas as coisas. Eu consumo; logo, emprego.
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