Joelmir Beting
Quem não leva a sério a preparação de algo está se preparando fatalmente para fracassar.
Benjamin Franklin (1706-1790), presidente dos EUA
Gestação atribulada
A gestação diplomática da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), com parto natural previsto para janeiro de 2005, já deixou de ser assunto de burocratas, consultores e empresários. Ela começa a empolgar os ongueiros da contestação global nos 34 países do Hemisfério. Com um e outro José Bové de contrapeso.
Nessa decolagem do ano 2001, fatos novos eletrizam ainda mais o trato da abrasiva matéria: 1) instalação dos republicanos de Bush no comando da operação; 2) pressa cada vez maior do salão oval da Casa Branca na ignição da Alca; 3) proposta formal de Washington para uma cesariana da Alca em janeiro de 2003; 4) desaceleração da locomotiva ianque; 5) retórica batida do neoliberalismo no Fórum de Davos versus dialética ruidosa do neoprotecionismo no Fórum anti-Davos de Porto Alegre: 6) trombada Brasil/Canadá na estrada ainda mal pavimentada e mal sinalizada para a Cúpula da Alca, no mês de abril, no Quebec.
Fiquemos no açodamento da diplomacia comercial da águia. A economista Eliana Cardoso, que conhece Washington mais do que o próprio Bush, não deixa por menos: os Estados Unidos cultivam num futuro crachá da Alca menos a integração econômica do Hemisfério e mais a massa crítica de barganha para a nova rodada dos acordos multilaterais da Organização Mundial de Comércio (OMC).
Seguinte: Washington tem luz própria para plasmar a nova ordem global, mas não tem aliança formal suficiente para dobrar a resistência em bloco da União Européia nos avanços do livre comércio. Em especial, o da liberalização progressiva dos mercados agrícolas e o da negociação tempestiva do tratado para serviços.
Nessa empreitada, o governo Bush já disse para que veio. Nem bem empossado, em 20 de janeiro, ordenou estudos para a urgente criação de consultorias econômicas dentro do Departamento de Estado, do Departamento de Comércio e do Departamento da Defesa. Acadêmicos ilustres assessorando diplomatas e generais.
Para Eliana Cardoso, essa estratégia republicana é refém de um fator condicionante: a outorga legislativa do fast track ao presidente.
Sem a via rápida para a negociação de acordos externos de comércio, até aqui sob o tampão severo do Congresso, o governo americano não terá como falar grosso na usinagem da Alca nem na mesa-redonda da OMC. Até porque um governo Bush politicamente fragilizado pelo imbróglio eleitoral da Flórida e pelo empate técnico de republicanos e democratas no Congresso.
Em resumo: com fast track, tenta-se a Alca 2003. Sem fast track, a Alca 2005, talvez.
Secos & molhados
Pretexto
- Patrulhados por empresários desprotegidos, sindicalistas ressabiados e ongueiros oportunistas, os democratas só admitem conversar sobre o fast track se o presidente Bush jurar impor na Alca cláusulas trabalhistas e ambientais de padrão americano ao sub-bloco sulamericano.
Desistiu
- Bill Clinton gastou oito anos de mandato em dobro na demanda frustrada do fast track. Essa carta branca sempre lhe foi negada pelos republicanos na oposição e pelos democratas na neoproteção. Estes engoliram o Nafta e sentem engulho pela Alca.
No desvio
- Bill Clinton perdeu para Greenspan os louros da Década de Ouro. E ficou no desvio do fast track quando gastou toda a munição na batalha do quase impeachment por suas prevaricações extraconjugais.
Tem chance
- A esse respeito, Eliana Cardoso escreve que Bush tem chance: Dizem que ele é um marido comportado, não corre atrás de estagiárias, não bate na mulher, paga todas as contas da casa e não reclama da comida. Isso facilita. Mas ainda não resolve.
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