‘‘Todo investimento reprodutivo em saneamento é contabilizado automaticamente como déficit público. Só no Brasil e no FMI.’’
José Serra, ministro da Saúde
Saúde ambiental - 2
Quem nada de braçada e de pernada na represa de obrigações leoninas do projeto de lei que reformula o sistema nacional de saneamento básico é a Sabesp paulista. Ela está a um passo da universalização total da água encanada e aproxima-se de dois terços do esgoto tratado e não apenas coletado.
A estatal cobre 366 municípios, endereço de 72% da população do Estado - incluída a região metropolitana, que hospeda hoje 1 brasileiro em cada 10. A cobertura da metrópole caótica, com periferia chegada ao dantesco, é trabalho de engenharia para 12 Hércules na água e para 12 Atlas no esgoto.
Do alto de um cronograma decenal de investimentos de R$ 3,1 bilhões em 1995/1999 e de mais R$ 4,1 bilhões para 2000/2004, a Sabesp já universalizou 100% da água na metrópole e no interior, 85% do esgoto coletado e 63% do esgoto tratado na metrópole e 93% e 51%, respectivamente, no interior.
Com alguns lances de placa. A cidade de Franca, com 300 mil habitantes, já é a primeira do Brasil, nesse porte, com troféu de Cidade 300%, no jargão do ramo: 100% de água encanada, 100% de esgoto coletado e 100% de esgoto tratado. A Baixada Santista atravessa o segundo verão sem racionamento de água. O Rio Pinheiros, no vale mais ‘‘chique’’ da capital, deixou de receber a céu aberto 85 toneladas de esgoto sanitário por dia... E os prazos médios de novas ligações caíram de 52 para 6 dias na água e de 61 para 7 no esgoto. Nos reparos, de 37 para 17 horas.
O novo marco regulatório do setor (detalhado, ontem, nesta coluna) coincide com o despertar da ‘‘consciência ambiental’’ na sociedade brasileira. O saneamento básico ganhou visibilidade pública e patrulhamento social. E não apenas quando acontece o estouro de uma adutora sob a avenida de tráfego denso ou quando ocorre racionamento em rodízio por exaustão sazonal de mananciais.
Até por obra e graça da privatização da telefonia, da rodovia ou da energia, o povo e a mídia deram de cobrar das estatais do saneamento padrões de qualidade e desempenho que antes eram relegados ao fatalismo da ineficiência atávica do Estado empresário.
Até a Petrobrás não mais consegue derramar impunemente seu sujo óleo - como sempre foi derramado pelas petros do Brasil e do mundo.
A verdade é que nos lares e nos bares já se faz ligação direta entre saúde ambiental e qualidade de vida de ricos, médios, pobres e favelados. Ou entre a falta de esgoto e a ‘‘fábrica de anjos’’ da desidratação infantil, vulgo mal de verão. E já se percebem, aqui e ali, os primeiros rasgos de indignação coletiva contra o vergonhoso desperdício de água encanada - de um terço da água coletada.
Secos & molhados
Paradigma
- A Sabesp desfila crachá de empresa-modelo, em estrutura, organização, engenharia, desempenho, rentabilidade, ousadia, comunicação social e transparência contábil. Em que pesem certas amarras do ente estatal, recheado de licitações, concorrências, concursos e cabrestos de capitalização, investimentos e gestão.
Transparência
- Digno de registro é o troféu conquistado pela Sabesp em 2000: o de demonstrativo de contas mais completo e mais transparente de um total de quase 2.500 empresas privadas e estatais. Um Oscar da Excelência Contábil, conferido pelos auditores da Anefac e professores da Fipe-Capi.
Voando alto
- A Sabesp não será privatizada (mas pode vender o excedente das ações de controle). Ela se prepara para ingressar no Novo Mercado inaugurado pela Bovespa (só para empresas líderes em transparência e governança). E já obteve o sinal verde da SEC americana para lançar seus títulos na Bolsa de Nova York.

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