Joelmir Beting
A nação que não sabe por que prospera também não sabe por que fracassa.
Arthur Schlesinger, historiador americano
Fôlego de sete gatos
Milagre econômico não existe. Milagre é efeito sem causa. No universo econômico, tal como no universo astronômico, nada acontece por acaso. A menos que se admita a possibilidade do crescimento sem sacrifício, do bem-estar sem trabalho e da justiça social sem renúncia nem partilha. Ou como dizia o inefável barão de Itararé nos esboços da física quântica: De onde menos se espera é que não sai nada mesmo.
Eis que o presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos juízes mais severos do milagre econômico da dependência externa e do autoritarismo interno dos anos 70, suspira fundo e compara: Podemos alcançar em 2001 uma taxa de crescimento equivalente à média do milagre econômico de três décadas atrás.
Enquanto o Ipea refaz o cálculo do PIB 2000 de 3,9% para 4,1% e o ministro Alcides Tápias aposta em PIB 2001 de até 5%, o presidente contenta-se, para este ano, com 4,5%. Segundo ele, a ruptura da inércia do triênio 1997/1999 para um nível sustentável de 4,5%, neste triênio 2000/2002, realmente corresponde ao esforço nacional reclamado pela média anual de 7% no ciclo do milagre. Com pico de 14%, em 1973, antes do oil-shock da Opep.
Usineiro do milagre na época, o professor, deputado e então superministro Delfim Netto, lembra hoje que um novo milagre só estará assegurado se o próprio governo FHC aplicar na economia brasileira um competente e inadiável choque positivo de isonomia competitiva.
Que bicho é esse? Um fôlego de sete gatos. Primeiro: garantir ao setor privado um custo de capital de padrão internacional. Segundo: reorientar e espichar a oferta de crédito bancário ao setor produtivo. Terceiro: desonerar os investimentos e as exportações. Quarto: civilizar o sistema tributário e modernizar o aparelho do Estado. Quinto: preservar, sem falsos dilemas, a estabilidade monetária como fator condicionante do crescimento econômico sustentado e duradouro. Sexto: investir entusiasticamente no desenvolvimento tecnológico e obsessivamente na valorização do capital humano. Sétimo: estabilizar as regras do jogo e promover a segurança jurídica dos contratos.
Fácil, não? Realmente, milagre é efeito sem causa. E esse, mais uma vez, não será nosso caso. Para igualar as taxas reais de crescimento do produto per capita dos anos 70, já temos pelo menos um importante aliado na tal de transição demográfica. Há 30 anos, a população crescia perto de 3%. Doravante, abaixo de 1,5%.
Secos & Molhados
Das fábricas
- A reação mais expressiva tem sido a do setor industrial -anteriormente, o mais deprimido. Em dezembro de 2000, ela produziu 11,4% acima de dezembro de 1999. No ano passado, deve ter ficado pela média de 6,4%, segundo o Ipea.
Das máquinas
- A sondagem mensal de desempenho que a FGV realiza na indústria em geral aponta para uma taxa recorde de ocupação da capacidade instalada. Em janeiro, mês sazonalmente fraco, ela subiu para 84%, Acima do pico de 83,5% de outubro, mês gregorianamente forte.
Das gavetas
- Pesquisas de consultorias diversas sobre intenções de investimentos produtivos para 2001 entoam a mesma partitura da retomada. Dá-se nesta decolagem do novo ano-fiscal das empresas um desengavetamento coletivo de projetos - garantia de ampliação da capacidade futura.
Das neuras
- O resto é transe rotineiro do tal de mercado financeiro, chegado ao ramo das neuras (nacionais e importadas). Taxas de câmbio, taxas de juros, índices de bolsas, rompantes do PFL...
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