Joelmir Beting
Ao misturar vacas com aviões, o Canadá extrapolou as razões e vai acabar perdendo a causa nas vacas e nos aviões.
José Maria de Jesus, vaqueiro
Vacas voadoras
De repente, o Brasil desponta como terceiro maior exportador de aviões e terceiro maior exportador de carnes. De aviões civis e de aviões militares. De carnes brancas e de carnes bovinas. E com impulso de banguela para brigar pela medalha de prata nas carnes e nos aviões ainda antes de 2010.
A observação é de João Carlos Meirelles, um pecuarista desbravador de longa data, que está secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Ele integra o Conselho Nacional da Pecuária de Corte e foi um dos principais animadores da estratégia de erradicação da febre aftosa no vasto rebanho do Centro-Oeste brasileiro.
Para João Carlos Meirelles - que bate ponto em todas as assembléias anuais da Organização Internacional de Epizootias (OIE), em Paris -, nosso José Maria de Jesus, mascador de fumo de corda goiano, está banhado de razão: quem extrapola o argumento, com arrogância e truculência, perde a razão e a causa.
Pelo sim, pelo não, metade dos gabinetes planaltinos defende uma saída diplomática pela negociação. A outra metade acena com uma colisão política pela retaliação. A negociação poderia salvar o intercâmbio comercial. A retaliação cuidaria de vitaminar o orgulho nacional.
Negociação ou retaliação? O Canadá abandonou a primeira e saiu à frente na segunda. Também na diplomacia universal, retaliação com retaliação se paga. Tanto mais porque, nas trocas comerciais, o Canadá vende mais do que compra do Brasil. Numa batida de frente, as avarias seriam maiores lá do que aqui. E não apenas nos pratos da balança comercial. Sobretudo, nos chassis da transfusão de capital. Empresas canadenses têm subsidiárias no Brasil e novos projetos para o Brasil.
O litígio Brasil/Canadá desnuda as fragilidades técnicas e políticas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e desarma o velho discurso do mais comércio, menos ajuda que informa a carpintaria americana da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Quem gosta da OMC e da Alca é a confraria dos países ricos e não a ninguenzada das nações emergentes e/ou submergentes.
Caso do choque alado Embraer/Bombardier. O Canadá brande um certo Acordo de Subsídios da OMC, supostamente violado pela empresa brasileira. Presidente da Embraer, Maurício Botelho lembra que esse Acordo não passa de mera clonagem do antigo pacto de subsídios dos 29 países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE (dos já desenvolvidos).Secos & molhados
Duas canoas
- Parceiro do Nafta, o México teve de aderir ao boicote canadense da carne brasileira. Moído de remorso latino, anunciou de bate-pronto a compra de aviões da Embraer, para desconsolo da Bombardier.
Duas moedas
- Presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luiz Suplicy Hafers reunirá os associados, segunda-feira, para decretar a suspensão das compras de sêmen bovino da boiada canadense. Afinal, a vaca louca apareceu por lá e não por aqui.
Duas ondas
- A síndrome comercial da vaca louca já encareceu em 43%, em média, as carnes brancas da Europa. Incluídas as do frango made in Brazil. Entre nós, a esperteza também inflaciona os cortes do frango e do porco - ainda sem recuo na faixa do boi.
Duas quedas
- Presente em 154 países, a cadeia McDonalds recuou 12% na Europa por causa dos transgênicos e outros 17% por obra da vaca louca. Fechou 2000 com vendas globais de US$ 10 bilhões, lucro líquido de US$ 452 milhões e 312 mil empregos diretos.
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