Joelmir Beting
Os inimigos do capitalismo não são comunistas nem socialistas. São os grandes capitalistas que abusam do capitalismo.
Malcolm Forbes (1919-1990), editor americano
A vaca é deles
Do embaixador do Brasil na Organização Mundial de Comércio (OMC), Celso Amorim: Os canadenses reabrem o expediente do antigo faroeste, onde os juízes autodesignados primeiro enforcavam e depois julgavam o enforcado. O embaixador brasileiro refere-se tanto à atual retaliação da vaca louca (que é deles e não nossa) como à recente concessão de subsídios à gigante Bombardier na batalha comercial contra nossa atrevida Embraer.
Do embaixador do Canadá na OMC, Sérgio Franchi: Os brasileiros não podem continuar ignorando as regras do futebol que tanto amam. Quando um jogador recebe dois cartões amarelos, vai para o banho. No jogo da OMC, o Brasil já tomou cinco cartões amarelos e continua dando botinadas no meio do campo.
O léxico futebolístico do diplomata canadense sugere que a OMC, árbitro da partida Bombardier vs. Embraer, vestiu a camisa do Brasil. Até por causa disso, o Canadá tomou a iniciativa, tal como os juízes do faroeste antigo, de servir-se da síndrome comercial da vaca louca para barrar a importação da carne brasileira. No que se fez acompanhar pelos juízes autodesignados da parceria do Nafta, os Estados Unidos e o México.
Tão zelosos pelos atestados de organizações multilaterais, sejam elas de bancos, patentes, micros, reatores ou alimentos, canadenses e americanos ignoram duas recentes manifestações de quem de direito nesta ópera-bufa em que já se transformou a vaca louca made in England: relatórios depositados, em dezembro, no Comitê de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias da OMC, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional de Epizootias (OIE).
Esses documentos fazem o primeiro rastreamento da vaca louca no mundo. O Brasil não aparece nesse mapa. O Canadá, sim. Na companhia da Inglaterra, Irlanda, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Itália, Portugal, Kuwait, Oman e Malvinas. No Canadá, vacas loucas importadas da Inglaterra.
Para o embaixador Celso Amorim, a retaliação canadense no lombo da carne brasileira tem a ver com os aviões da Embraer e não com os filés da Sadia. Um carrinho por trás e sem bola, digno de um cartão primeiro e único: o vermelho.
Em Washington, segunda-feira, o ministro Pratini de Moraes depositou um dossiê, já sancionado pela OIE, comprovando que o Brasil nunca comprou ração animal européia feita com carcaças bovinas. E não importa vacas inglesas desde 1990.
Secos & Molhados
Ciumeira
- Canadenses e americanos, com sobras para os europeus, temem que a anta vire tigre. Primeiro, Brasil colocando-se como terceiro maior fabricante e exportador de aviões do mundo. Segundo, dominando o mercado mundial da proteína vermelha
Nos céus
- A Embraer investe mais US$ 1,7 bilhão em modernização e ampliação. Não contente em disputar o bronze com a canadense Bombardier, ela decidiu penetrar no rodapé de mercados até aqui rachados pela Boeing e pela Airbus.
Nos pastos
- Rebanhos zebuínos cruzados com raças européias deram ao Brasil um animal imbatível, de ficção científica. Ele se alimenta mais de capim que de ração. Ele combina rusticidade com ganho de peso. E nos dá carne magra de boi gordo...
Azedando
- Ao misturar proteínas com turbinas, o Canadá pode azedar o leite da Cúpula de Quebec. Ele será anfitrião, em abril, do encontro de chefes de Estado dos 34 países da Alca, a futura área de livre comércio das três Américas. Livre para quem, cara-pálida?
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