‘‘O senhor Greenspan é uma voz independente. Ele terá de continuar assim, independente.’’
George W. Bush, presidente dos EUA
Juros da desconfiança
O estado de espírito jururu de 5 mil famílias americanas de classe média é que determinou a nova redução da taxa básica de juros em meio ponto porcentual. Pesquisadas mensalmente em rodízio pela Conference Board, instituição mantida pelas grandes corporações, essas 5 mil famílias compõem o chamado Índice Nacional de Confiança do Consumidor.
Pois, na semana passada, em seu depoimento semestral no Senado, Alan Greenspan avisou que a recalibragem dos juros do Fed seria determinada, desta feita, pelo novo índice de (des)confiança dos consumidores, com divulgação prevista para terça-feira, 30, véspera da decisão sobre os juros.
E não deu outra. O índice despencou em janeiro para 114,2 pontos, o menor desde dezembro de 1996. Há exatamente um ano, ainda antes do primeiro ‘‘crash’’ da Nasdaq, esse mesmo índice trafegava pelo recorde histórico de 144,7 pontos.
Sem entrar no mérito da amostragem estatística, de apenas 5 mil palpites sobre o curso erradio da economia em geral, o grau de confiança dos consumidores tende a ser levado realmente a sério para uma sociedade hedonista que faz transitar pelos terminais do consumo de bens e serviços nada menos de 70% de um PIB de quase US$ 10 trilhões, a dólar de hoje.
Tanto mais quando é sabido que o reator do consumo individual ou familiar de US$ 7 trilhões tem sido, nos últimos dez anos, o crediário generosamente fornecido por bancos e lojas, com juros baixos e prazos longos. Em média, cada americano devia, em novembro, ainda segundo a Conference Board, 187 dias de salário. Parece que o brasileiro não chegaria, hoje, a 25 dias, nos cálculos cruzados da Serasa e da Anefac.
Se há um cidadão antenado no futuro próximo é justamente aquele endividado em banco e em loja. Ele penhora o consumo financiado (ou antecipado) na expectativa de manutenção de renda (ou de emprego) no cenário assim comprometido. Quando esse mutuário deixa de confiar no estado de saúde da economia nacional, ele se antecipa à crise, cai na retranca e precipita a própria crise. Ou como nos ensina a escola das expectativas racionais de Robert Lucas e Thomas Sargent: a expectativa de baixa provoca a baixa que sanciona a expectativa...
Alan Greenspan e seus 11 parceiros do Federal Reserve não precisavam de sete horas de reunião na terça e mais cinco na quarta para cortar mais meio ponto porcentual da taxa básica. Teria bastado, por e-mail, notificarem-se da queda brusca do índice de confiança dos consumidores sondados pela Conference Board. Da qual o próprio Greenspan foi diretor, antes de assumir o Fed.
Secos & Molhados
Um século
- O índice da Conference Board, fundada em 1897, foi lançado em setembro de 1901. Há ajustes periódicos na série histórica do índice. Nessa quadra, a base 100 está plantada em janeiro de 1985. O fundo do poço da nova série deu-se em janeiro de 1992, com 49,4 pontos.
Remorso?
- Dizem que Alan Greenspan, republicano de carteirinha e capo do Fed desde julho de 1987, teria vacilado no corte de juros durante a recessão de 1990. Por causa dela, o presidente George Bush, o pai, teve a reeleição barrada pelo ‘‘collorido’’ William Jefferson Clinton...
Prontidão
- Para não reprisar o cochilo a dano do empossado George Bush, o filho, Greenspan deve permanecer de prontidão no painel dos indicadores macroeconômicos. Ontem, saiu o índice de compras das empresas - para baixo. Hoje deve sair o índice de desemprego - para cima.
Novo corte
- Um terceiro corte dos juros pode ocorrer antes da próxima reunião do Fomc/Fed, em 20/21 de março.
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