‘‘Nem tudo o que é estatal é socialista. Nem tudo o que é socialista é estatal.’’
Friedrich Engels (1820-1895), filósofo alemão
Guaíba versus Davos
A globalização não é uma articulação de governos imperialistas nem maquinação de empresas oligopolistas. Ela não foi desejada por nenhum governo nem esperada por qualquer empresa.
Os governos perdem poder com ela - incluído o salão oval da Casa Branca de susto. O processo não consulta a natureza animal do ente governo, que não é de abrir mão de poder, de autoridade, de intervenção, de soberania. Que o diga a fuzarca dos capitais voláteis - que Charles de Gaulle, na crise cambial de 1967, chamou, simplesmente, de ‘‘os chacais da moeda’’.
A globalização igualmente atropela as grandes empresas sem fronteira e sem bandeira. Elas já se consideravam globais bem antes da globalização. De repente, tiveram de compartilhar os mercados entreabertos com competidores de todos os portes e tipos. E dentro de novas regras de gestão e de novas estratégias de mercado. Esses mastodontes da economia global obrigaram-se a realizar uma reengenharia corporativa de caráter até desumano - ou já teriam desaparecido.
Não desejada pelos governos nem esperada pelas empresas, a onda de choque da globalização nada mais é que um subproduto da explosão das tecnologias da informação desde meados dos anos 80.
Fenômeno ocorrido antes da inauguração de um moinho de vento ideológico chamado Consenso de Washington.
A própria palavra globalização apareceu pela primeira vez na mídia global por volta de 1987. Ela vale hoje para todos os idiomas, exceto o francês de José Bové. Em francês, a coisa leva crachá de mundialização, patenteada pelo indigesto Le Monde Diplomatique.
Domingo, eu me diverti com o debate on-line Davos versus Guaíba. Perdão: com a troca de ironias e de insultos via satélite entre magnatas do veterano Fórum Econômico Mundial de Davos e camaradas do estreante Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Eu não entendi por que os segundos toparam o bate-boca justamente pela webcasting, aríete digital da globalização.
Davos versus Guaíba. Seis dias corridos de retórica pró-empresa versus seis dias corridos de dialética pró-Estado. No primeiro, o desafio de tripular os sucessos e os excessos da economia de mercado. No segundo, o constrangimento de rejuntar os cacos dos fracassos e dos fiascos da economia de comando. Com infiltração, em ambos os comícios, de lobistas do neoprotecionismo. Em Porto Alegre, sob liderança do protegido e subsidiado José Bové, próspero fabricante de queijo rockefort. Um acepipe que, até por não cheirar bem, não pode dar liga com o hambúrguer Big Mac, moeda global da The Economist.Secos & molhados
Estado máximo
- O neointervencionismo de Porto Alegre, que deu carona a um neocepalismo nostágico dos anos 60, desemboca na utopia do Estado Máximo. Cuja (re)construção tem a ver menos com a engenharia social e mais com a sociologia do poder pelo poder.
Estado mínimo
- O neoliberalismo de Davos insiste na catequese do Estado Mínimo, no rodapé de um mercado pactuado e auto-regulado. Um discurso que despreza as contradições naturais do capitalismo para brandir as contradições comprovadamente suicidas do socialismo.
Estado ótimo
- Davos e Porto Alegre ficaram nos devendo uma discussão técnica e honesta de um Estado ótimo. Que pode variar de nação para nação e de estágio para estágio de uma mesma nação. Um Estado arbitral, ‘‘governado’’ pela sociedade.
Duas pistas
- O melhor inventário da falência da economia de comando é o livro O Horror Político (Bertrand), do sociólogo francês Jacques Généreux. O melhor periscópio da nova economia de mercado é o livro A Riqueza do Futuro (Campus), de Stan Davis e Christopher Meyer.

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