Parto de montanha
Para a carpintaria diplomática da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o governo Bush tem mais apetite e mais trejeito que o governo Clinton. Em matéria de abertura comercial, a dialética republicana, tida como conservadora, é mais extrovertida que a retórica democrata, com crachá de liberal. Os democratas no governo e no Congresso são marcados sob pressão pelos currais eleitorais dos empresários protecionistas e dos sindicalistas idem.
Assinado: sete em cada dez empresários brasileiros e americanos consultados pelo Conselho Empresarial Brasil/EUA - fórum privado bilateral para assuntos de comércio e pepinos afins.
A pesquisa revela que 67,8% dos empresários acreditam no cacife político do presidente George W. Bush para obter do Congresso o tal de ‘‘fast track’’. Que bicho é esse? Expediente de via rápida para a assinatura presidencial de acordos e tratados externos de comércio, sem o corta-luz de emendas do Congresso, infestado de ‘‘lobbies’’.
O Conselho Empresarial Brasil/EUA ainda aposta na antecipação da Alca de 2005 para 2003. Claro, se Bush conseguir desfraldar o ‘‘fast track’’ ainda este ano e se o Brasil, à frente do Mercosul, deixar de torcer o nariz para a Alca de 2003 e de fazer beicinho para a Alca de 2005. Sem contar o namoro do Mercosulcom a União Européia.
A ala americana do Conselho entende que as empresas brasileiras adoram ‘‘pegar no tranco’’ da competitividade em situações de choque. Ou seja: a Alca já se tornou irreversível e tudo não passa de uma simples questão de prazo. Se as empresas brasileiras não estiverem preparadas para o choque de competição em 2003, também não estariam em 2005 nem em 2007.
A ala brasileira prefere continuar condicionando o advento da Alca, em 2003, a um rebaixamento, ainda em 2001 e 2002, de pesados fardos do chamado custo Brasil. Entre outros, a sobrecarga tributária asinina, o crédito bancário curto e caro, a burocracia pegajosa e os vazios da infra-estrutura econômica. Os três primeiros podem ser aliviados por canetadas tópicas ou pontuais. Os últimos, só por um trabalho físico de 12 Hércules, de 2001 a 2010.
Pelo sim, pelo não, a diplomacia comercial do governo Bush fez sua estréia na reunião hemisférica da Alca, esta semana, em Lima.
Vice-ministros de comércio e de chancelaria dos 34 países do Hemisfério (exceto Cuba) examinaram propostas de aceleração da usinagem jurídica da Alca. Cronograma a ser ratificado (ou não) pelos chefes de Estado na terceira edição da Cúpula das Américas, de 20 a 22 de abril, na plácida cidade canadense de Quebec.
Secos & molhados
Texto final
- A reunião do segundo escalão ministerial, em Lima, procurou arredondar a bola para os ministros da Alca, escalados para o texto final das propostas em um encontro marcado para 7 de abril, em Buenos Aires.
Amercosul
- O governo brasileiro já deixou claro que as economias latino-americanas precisam de tempo maior para uma musculação adequada de suas empresas e de seus mercados. O ideal seria, antes da Alca, maturar e espichar o Mercosul para toda a América do Sul, vulgo Amercosul.
Empresários
- O setor privado vai opinar formalmente sobre a Alca no VI Fórum Empresarial das Américas, agendado para 5 e 6 de abril, em Buenos Aires, véspera da reunião ministerial. Dali sairá a posição das lideranças empresariais para a Cúpula de Quebec.
Elo perdido
- A construção da Alca não tem vaga para as centrais sindicais do Hemisfério. Será que também no século 21 o capital humano não passará de quilos, litros, metros, horas e cifrões?
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