Joelmir Beting
A História nunca muda. O que muda sempre são os historiadores.
Aléxis de Tocqueville (1805-1859), historiador americano
De Davos ao Guaíba 2
Palavrão intelectual da vez, a globalização vem sendo apresentada por acadêmicos ilustres e por estudiosos nem tanto como maquinação ofídica do salão oval da Casa Branca. Ela seria o formato definitivo do imperialismo americano pós-muro, fantasiado de neoliberalismo.
Ou se preferem: um arranjo telúrico do Departamento de Estado, patrocinador de um braim storm mal explicado, que a esquerda universal, ideologicamente deserdada, passou a chamar ou a xingar de Consenso de Washington. E por que não um Consenso de Davos?
Que ganha, neste fim de semana, em Porto Alegre, um contraponto metafísico que bem aceitaria o rótulo de Consenso de Guaíba. Pelo discurso monocórdio do Fórum Social Mundial, na capital gaúcha, a globalização é um projeto político americano e não um processo natural das forças econômicas e sociais em países ricos pobres e emergentes (ou submergentes). Há até quem diga que o globalismo (ideologia da globalização) teria começado com Marco Polo na aurora do segundo milênio.
E teria sido fanaticamente badalado pelos comunistas amoitados na Internacional Socialista do século 20. Sem contar a milenar globalização evangélica do Cristianismo.
Historiadores que adoram recontar ou reinventar a História localizam as sementes da globalização na revolução tecnológica que fez zarpar as grandes navegações européias no final do século 15. Outros estudiosos preferem situar o marco zero do processo na multinacionalização das grandes corporações industriais do Atlântico Norte na largada do século 20.
Ou será que não? Ensaístas americanos sustentam que a globalização só teria emergido da toca a partir da explosão das trocas mundiais já nos anos 50. Quando vieram à luz a negociação de um tratado global de comércio (o Gatt que virou OMC), a decolagem de um primeiro megabloco econômico (matriz da atual União Européia dos 15) e o crescimento do comércio internacional a uma taxa anual duas vezes maior que a das economias nacionais como um todo.
O estreante Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, prefere a versão politicamente charmosa do tal de Consenso de Washington. O que situaria o embrião da globalização na virada dos anos 90. Já o veterano Fórum Econômico Mundial, em Davos, em sua 30ª edição anual, contenta-se em classificar o processo como um ruidoso subproduto da dinâmica capitalista. Agora turbinada pela revolução tecnológica mais poderosa de todos os tempos: a da explosão das tecnologias da informação digitalizada, desde meados dos anos 80. Nada mais que isso.
SECOS E MOLHADOS





